DesfruteM
Quando estou sem criatividade para escrever experimento inventar algum prato. No sábado passado entre uma certa melancolia e um branco fui para a cozinha. Queria preparar algo que aplacasse o banzo e agradasse verdadeiramente o estômago. Deixe que alma se entenda com outra alma e o corpo com outro corpo já recomendava Manoel Bandeira para assuntos de amor. Fome se aplaca com comida e saudade ou falta de inspiração se resolve...Sei lá! As vezes se recomenda tratar as subjetividades e as metafísicas amorosas com coisas concretas, ocupações materiais. Os padres eram mestres em recomendar que quando estivéssemos com dores da alma, desejos libidinosos nos ocupássemos com o trabalho. Prefiro fazer sublimações mais gostosas. Para aplacar saudade medonha Desfrute um bom prato, beba uma boa bebida e deite numa rede e deixe a mente descansar. Foi assim meu proceder. O prato se chama DesfruteM.
Não é vegetariano. Tem do nordeste como ingrediente a massa de tapioca, povilho azedo ou carimã. A carne é de porco, apreciada nas mesas mais granfinas às populares. Os temperos são um mix dos exotísmos indianos o curry, alecrim (rosmarinus) mediterrâneo, que no latim quer dizer orvalho do mar, de serventia para culinária como também nos ritos religiosos. As vezes cozinhar é um ato sagrado. Veja só uma receita que junta o profano e o sagrado. Nos temperos ainda vai o hortelã, que é a ninfa Minthe amada de Plutão que foi transformada em erva para fugir da ira ciumenta da mulher do deus grego. Tem ainda o cacau presente dos Maias e Astecas,ingrediente afrodisíaco, para preparar o o molho. No nosso caso pode ser um cacau ou chocolate baiano, que com certeza será ainda mais afrodisíaco. Tem pimenta do reino uma especiaria das mais antigas, produto que causou descobertas e guerras. Ora já dizia uma cozinheira que me ensinou deliciosos pratos: " meu filho junte e misture coisas boas que possibilidade do prato sair bom é quase certa. Só não exagere no sal nem no açúcar. Pimenta...é como sexo, do gosto de cada um".
Pensei que saudade fosse um exagero de sal ou açúcar mas Luiz Gonzaga comparou a jiló: saudade assim faz doer e amarga qui nem jiló. Nesse prato não vai jiló, mais tem um cadinho de saudade! Sei que no dia desfrutei. A saudade será sempre fome da alma. Chega de divagações e vamos a receita.
Ingredientes
1/2 quilo de filé mignon de porco moído.
1/2 xícara de chá de povilho azedo
Uma colher de chá de curry
Um tanto de hortelã, alecrim,salsa e cebolinha picados
Amêndoas cruas quebradas
50 gramas de bacon picado
Azeite de oliva
Sal
O molho
Uma colher de sopa de manteiga
200 gramas de chocolate meio amargo
Pimenta do reino
Meia cebola ralada
Sal
Preparo da carne
Umedeça bem o povilho
Frite o bacon e depois junte as amêndoas para dourar.
Misture com a carne os temperos alecrim,hortelã, curry, salsa,cebolinha,as amêndoas, o bacon
e sal com a devida temperança. Ponha o povilho e amasse bem. Faça pequenos bolinhos ponha numa travessa, regue com um pouco de azeite cubra com papel alumínio e leve ao forno por uns vinte
minutos. Observe se assaram, retire o papel alumínio deixe dourar um pouco.
O molho
Derreta a manteiga e doure a cebola.
Ponha um pouco de água e acrescente o chocolate. Deixe derreter e tempere com a pimenta do reino. Mexa até engrossar um pouco.
Ao servir regue os bolinhos com o molho
Para acompanhar
Um panachê de legumes com ervilhas.( cenoura, batatas picadas e ervilhas salteadas no azeite)
quarta-feira, 8 de junho de 2011
DesfruteM
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
21:39
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
sexta-feira, 25 de março de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
Com açúcar, com afeto e… galinhas
De
Elvira Maria Ventura Filipe
- Tia vem vê as galinhas! Gritou Branca com voz excitada agarrando a minha mão com a sua, pequena e de dedos longos.
Aos seis anos, a criança mais carinhosa e divertida que conheço, filha de uma das minhas amigas e com quem convivo quase diariamente desde a maternidade, já conhecia a Disneyworld, a Disney Paris, mas nunca tinha visto uma galinha de carne, osso e penas. A ave de patas finas, pescoço longo e crista carnuda denotando altivez era conhecida apenas por meio da televisão e dos livros escolares. E, se não fosse pelo churrasco no sítio dos amigos dos pais, talvez passasse a infância sem conhecer empiricamente o animal.
- Vem tia, vem. Insistia dengosa, puxando-me.
Diante da sua ansiedade para mostrar-me o animal desconhecido, exótico talvez (desconfio que um dinossauro teria provocado menos alarde), se quer consegui largar o prato que segurava. E, contente por compartilhar sua excitação pelo novo e inusitado, o insólito, lá fui eu puxada por uma das mãos e equilibrando o prato na outra – que só continha verdura e pedaços de frango já que não como carne vermelha. Ironia?
Sentada na grama, ao mesmo tempo em que observava Branca correndo desajeitada atrás das galinhas gritando insistente e feliz: - Olha tia, olha! E lhe sorria e acenava, via duas meninas: Uma de olhos brilhantes e negros com os cabelos lisos cortados na altura do queixo, contrastando com a pele clara e as bochechas vermelhas e outra, de olhos brilhantes verdes, pele muito branca e duas longas tranças chegando aos ombros. Ora correndo atrás de galinhas ora ao lado da avó esticando a mão miúda para atirar milho a elas. Este, era retirado de seu avental, que só era abandonado nos dias de festa. Levantado e dobrado pelas quatro pontas, transformava-se em um saco amarrado a cintura de onde tirávamos o milho.
Minha avó criava galinhas e coelhos… e flores. Sim, criava, tamanho era o desvelo com que cuidava delas.
- Se gostas, podes escolher um pra ti. Não havia um sorriso, um “muito obrigada” ou “também gosto”. Era essa sua única frase sempre que alguém elogiava suas dezenas de vasos.
Para minha avó, a criação, como eram chamados todos os animais que não os de estimação, tinham a finalidade de servir de alimento. Também servia para amaciar sua dureza e ranzizisse. Quando oferecia seus vasos de flores e ao matar, limpar, preparar e servir um coelho ou uma galinha demonstrava o afeto, o carinho, a suavidade e a ternura que não conseguia expressar fisicamente. Não me lembro de tê-la visto sorrindo. Será mesmo que nunca ria? Ou será que minha memória já é incapaz de rememorar algum sorriso escondido nos seus olhos verdes ou na face dura e fechada?
- Olha que cais! Dizia ela ao caminhar arrastando os chinelos enquanto eu corria pulando a sua frente.
Sua rotina de alimentar as galinhas era também a minha quando a visitava. Primeiro as chamávamos imitando o seu piado. Muito me fascinava o grupo de galinhas competindo pelo milho e a rapidez com que o engoliam! Depois corria pelo galinheiro. Qual seria o prazer de correr atrás de um bando de galinhas cacarejando, assustadas e barulhentas? Talvez o mesmo que agora via estampado no rosto e no olhar fascinado de Branca. Minha avó criou e alimentou galinhas até o fim da vida. E, em todos os fins de tarde ia ao quintal. Praticamente cega e com dificuldade para andar, curvada, apoiando-se em um galho de árvore torto, sempre vestindo a saia preta franzida que lhe chegava aos tornozelos sob o largo avental, lá ia ela arrastando seus chinelos. Atirava milho às galinhas e por alguns minutos conversava com elas. Agora já não as via, e nem precisava, pois os domingos não eram mais dias santos, de almoço, de escolher a melhor galinha. Aquela que daria a saborosa canja para a neta preferida. Ainda se alimentava de galinhas, mas alimentava-se de sua companhia. Tão ranzinza e teimosa que ninguém conseguiu convence-la a ter televisão.
No sítio dos amigos, as galinhas divertiram, alegravam e alimentavam… a curiosidade e a fantasia de crianças, que antes de conhecer um animal tão banal, conhecem o Mickey Mouse.
- Vem Branca! Vamos procurar milho pra dar pras galinhas! Gritei sorridente, espontânea como a criança que era neste momento, depois de me voltar para o prato que estava ao meu lado e encher a boca com um pedaço de frango. Alimento saboroso este! Pois agora tinha o delicioso sabor da infância… A de duas meninas.
Elvira Maria Ventura Filipe
- Tia vem vê as galinhas! Gritou Branca com voz excitada agarrando a minha mão com a sua, pequena e de dedos longos.
Aos seis anos, a criança mais carinhosa e divertida que conheço, filha de uma das minhas amigas e com quem convivo quase diariamente desde a maternidade, já conhecia a Disneyworld, a Disney Paris, mas nunca tinha visto uma galinha de carne, osso e penas. A ave de patas finas, pescoço longo e crista carnuda denotando altivez era conhecida apenas por meio da televisão e dos livros escolares. E, se não fosse pelo churrasco no sítio dos amigos dos pais, talvez passasse a infância sem conhecer empiricamente o animal.
- Vem tia, vem. Insistia dengosa, puxando-me.
Diante da sua ansiedade para mostrar-me o animal desconhecido, exótico talvez (desconfio que um dinossauro teria provocado menos alarde), se quer consegui largar o prato que segurava. E, contente por compartilhar sua excitação pelo novo e inusitado, o insólito, lá fui eu puxada por uma das mãos e equilibrando o prato na outra – que só continha verdura e pedaços de frango já que não como carne vermelha. Ironia?
Sentada na grama, ao mesmo tempo em que observava Branca correndo desajeitada atrás das galinhas gritando insistente e feliz: - Olha tia, olha! E lhe sorria e acenava, via duas meninas: Uma de olhos brilhantes e negros com os cabelos lisos cortados na altura do queixo, contrastando com a pele clara e as bochechas vermelhas e outra, de olhos brilhantes verdes, pele muito branca e duas longas tranças chegando aos ombros. Ora correndo atrás de galinhas ora ao lado da avó esticando a mão miúda para atirar milho a elas. Este, era retirado de seu avental, que só era abandonado nos dias de festa. Levantado e dobrado pelas quatro pontas, transformava-se em um saco amarrado a cintura de onde tirávamos o milho.
Minha avó criava galinhas e coelhos… e flores. Sim, criava, tamanho era o desvelo com que cuidava delas.
- Se gostas, podes escolher um pra ti. Não havia um sorriso, um “muito obrigada” ou “também gosto”. Era essa sua única frase sempre que alguém elogiava suas dezenas de vasos.
Para minha avó, a criação, como eram chamados todos os animais que não os de estimação, tinham a finalidade de servir de alimento. Também servia para amaciar sua dureza e ranzizisse. Quando oferecia seus vasos de flores e ao matar, limpar, preparar e servir um coelho ou uma galinha demonstrava o afeto, o carinho, a suavidade e a ternura que não conseguia expressar fisicamente. Não me lembro de tê-la visto sorrindo. Será mesmo que nunca ria? Ou será que minha memória já é incapaz de rememorar algum sorriso escondido nos seus olhos verdes ou na face dura e fechada?
- Olha que cais! Dizia ela ao caminhar arrastando os chinelos enquanto eu corria pulando a sua frente.
Sua rotina de alimentar as galinhas era também a minha quando a visitava. Primeiro as chamávamos imitando o seu piado. Muito me fascinava o grupo de galinhas competindo pelo milho e a rapidez com que o engoliam! Depois corria pelo galinheiro. Qual seria o prazer de correr atrás de um bando de galinhas cacarejando, assustadas e barulhentas? Talvez o mesmo que agora via estampado no rosto e no olhar fascinado de Branca. Minha avó criou e alimentou galinhas até o fim da vida. E, em todos os fins de tarde ia ao quintal. Praticamente cega e com dificuldade para andar, curvada, apoiando-se em um galho de árvore torto, sempre vestindo a saia preta franzida que lhe chegava aos tornozelos sob o largo avental, lá ia ela arrastando seus chinelos. Atirava milho às galinhas e por alguns minutos conversava com elas. Agora já não as via, e nem precisava, pois os domingos não eram mais dias santos, de almoço, de escolher a melhor galinha. Aquela que daria a saborosa canja para a neta preferida. Ainda se alimentava de galinhas, mas alimentava-se de sua companhia. Tão ranzinza e teimosa que ninguém conseguiu convence-la a ter televisão.
No sítio dos amigos, as galinhas divertiram, alegravam e alimentavam… a curiosidade e a fantasia de crianças, que antes de conhecer um animal tão banal, conhecem o Mickey Mouse.
- Vem Branca! Vamos procurar milho pra dar pras galinhas! Gritei sorridente, espontânea como a criança que era neste momento, depois de me voltar para o prato que estava ao meu lado e encher a boca com um pedaço de frango. Alimento saboroso este! Pois agora tinha o delicioso sabor da infância… A de duas meninas.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
07:35
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Palafitas

http://www.djibnet.com/photo/salvador/sobre-palafitas-133381918.html
Palafitas ( Desassossego V)
Ela habitava uma casa de palafita. Ocupava-se de consistências. A consistência da madeira, que sustentava a habitação. A consistência da água, que conspirava contra a consistência da madeira, apodrecendo-a lentamente. A consistência do vento, que atiçava água na madeira.
Ocupava-se da consistência da comida nas panelas, ocupava-se em “dar o ponto”. E também da consistência do humor do marido e das febres dos meninos. As febres eram muitas, dado o contato diário dos meninos com o lixo acumulado na várzea.
Ela ocupava-se da consistência das saias, que vestia e tirava no correr dos dias. Se elas rasgavam, ocupava-se em cerzi-las.
Sua ocupação também consistia em preocupar-se com as enchentes ocasionais. Não era sempre, mas às vezes o rio crescia e zoava, com perigo para as palafitas. Ela se ocupava em rezar, quase devorando as palavras das orações, como lobos famintos devoram ares com cheiro de ovelhas.
As consistências de que se ocupava melhor seriam chamadas de persistências. As outras, as arcanas consistências da alma, essas não lhe ocupavam. Em que consiste, afinal, consistir, perguntaram-se em todos os tempos os sábios. Ela também gostaria de ter sabedoria, mas não sabedoria doída. O que a vida lhe doía já era muito existencial. Esses assuntos de sentimentos... Pois tinha um, preocupação é um sentimento, e às vezes basta. Ocupa todo o pensar. Nunca pensara em outras coisas, senão no seu concreto modo de viver. E tinha também amor, concreto, válido para mostrar aos meninos o que deveria ser a vida.
Mas, a vida... Nunca pensara em subjetividades? Talvez um dia tivesse tido sonhos, essas grandes inconsistências, feitas de pura nuvem. Era quando não tinha ocupações. Mas os sonhos quedaram-se num passado remoto, como os toscos conflitos existenciais e questões filosóficas com as quais poderia ter se defrontado. Nunca quis.
Era imperativo ocupar-se da sua própria consistência, que era resistência. Nisso consistia o real, a existência. Do resto, não sabia dizer, nem o queria. Já conhecia a consistência da dor, já estava acostumada com a dor física. Não queria outra, uma dor fluida, como correnteza, uma dor dentro represada, uma dor que às vezes crescia e zoava, com perigo para a alma. Conhecera alguém que se deixara tomar por essas dores e correra doida. Para ela não queria isso, não.
Não queria outras fomes, outras sedes. Não queria outras flagelações, além das já vividas e das que seriam inevitáveis, à beira do rio. Não queria entender, nem ocupar-se de outras consistências, que não as já conhecidas: água, madeira, vento, comida escassa, humor do marido, febre dos filhos. Chega!
O ócio lhe daria outras dores, ela adivinhava no dia-a-dia. Não queria o ócio. Esse não querer talvez já fosse atravessar as arcanas consistências da alma. Mas ela não o sabia, não saberia.
Carmem Vasconcelos - Poeta Potiguar
http://www.tanto.com.br/carmemvasconcelos.htm
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
10:34
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
crônicas
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Um Cão Domingo
Um Cão Domingo (Desassossego IV )Desde tempos imemoriais discute-se a natureza do domingo. Renato Carneiro Campos despiu o domingo com a sua pena-lâmina, fazendo chorar as frutas maduras e assinalando o dia, como guardião das sensações fundamentais.
Em Brasília, um domingo perdido no calendário das coisas acontecidas eu e meu cachorro parlamentávamos sobre a natureza dos homens, sobre o que lhes fustiga a alma e arrepia a pele do pensamento.
Fidel, cão amigo, um beagle-paisagem, olhava-me, os olhos nos meus, cúmplice, rosto interrogativo, levemente inclinado, orelhas despertas - sinal da sua concentração – e, atônito, dizia-me: ‘reguemos o jardim que as flores brotarão com força‘. Admoestado pela canina lucidez, eu cismava: a solidão e o silêncio são uma dádiva e as flores, luxo de quem alimenta formigas, devem ser reverenciadas...
A casa estava quieta, eu e o cachorro à porta da solidão domingueira, as borboletas tamborilando sobre as folhas, a luz ricocheteando sobre a água, sobre as palmeiras, sobre o olho do animal, fazendo o marrom mudar-se em amarelo e ferver o mel da expressão.
Abri a mangueira d’água e senti prazer em vê-la escorrer sobre a tarde quente, o cheiro do cerrado penetrando as narinas, como se o bolo da vida estivesse sempre saindo do forno.
Fechei os olhos e deixei vaguear o pensamento, como revoluteia a fumaça do charuto, no céu da boca tomada de sensações.
A casa estava plácida como um jardim espanhol, molhado, cantante, como aquele dos mouros, dos reais alcazares, onde se respira frescura e quietude.
Olhei as papoulas plantadas por mim ao longo da cerca e vi que a vida, como o jardim que nos cerca, é fruto da dedicação de um jardineiro fiel. E tomado pela angústia – alma do domingo – sorvi o conhaque com resignação.
Qual é a natureza do domingo?
Afundado em minha rede em Aldeia penso que o domínio do tempo é uma arte. A angústia é filha dos relógios, dos calendários, do seu passo implacável, do seu apetite devorador, do seu micróbio demoníaco, do seu verme.
Penso no domingo como o dia do martírio. Por mais belos, os verdes são perfurantes; por mais despudorados, os azuis são cheios de espinhos.
Afundado na rede, pilhas de jornais de um lado, revistas e livros do outro, vejo que o jardim está cuidado, as begônias enfeitam a lapela da tarde, enquanto as bromélias e as palmeiras ciciam. Por que, então, tamanha melancolia? É o triste do domingo, diria meu fidelíssimo amigo. E arremata, latindo como quem chora: ‘ a melancolia é um mal necessário e o dia de falso descanso tanto serve à expansão, ao cometimento, como ao ofício de pensar, dia de encolhimento, dia de concha ‘. Cachorro bom, o meu.
Salto da rede, aspiro o cheiro de húmus que vem da mata e espreguiço o músculo do coração, indo eu mesmo correr o jardim, tocar as folhas, ver os canteiros, falar com as plantas...
O exercício de deixar a terra entrar pelas unhas acalma, relaxa. A natureza do domingo não é diferente da natureza dos homens. Ela só pede que fiquemos atentos ao vôo dos morcegos. A vida está nas pequenas coisas. Vejo uma teia de aranha tecida ao acaso na porta da frente. E olhando aquele bordado inusitado vejo que o domingo, como a vida, é o que fazemos dele. Assovio chamando Fidel e este, rabo ativo de contente, levanta-se com a disposição dos que peitam a tristeza com a descoberta de que a vida é desafio. Está pronto para sonhar o dia. Leio Manoel de Barros e deixo que as palavras simples irriguem a vida...
De um banco de onde posso ver a maior porção de jardim, lembro daquele domingo planaltino em que recuperei o meu patrimônio extraviado: o céu da deslumbrada infância, um pomar de estrelas, um curral de nuvens afoitas... E o domingo se vestiu do fraque azul do poeta Carlos, um jardineiro fiel.
* Tadeu Alencar - Procurador da Fazenda Nacional e Procurador Geral do Estado.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
09:42
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
crônicas,
Desassossegos
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Desassossego II - César Bargo
Desassossego.
Um pé que insiste em tremer na busca por um ritmo onde música não existe;
Um poro que transborda em suor, onde a noite é seca, fria e triste.
Um rosto que foge ao encontro, ainda que os olhos busquem sua luz
Um desejo inócuo de mudança, despojada de sentido, ainda que alçada à condição de essência;
Um quebra cabeças, onde peças sem cor formam imagens que não conheço.
A condição de estar só, sem estar só, por só estar e ser;
A solidão de quem não vê que está com todos – que está com Deus.
Uma porta que insiste em ficar aberta – o vento que não passa por ela;
Um carro à distância que poderia vir aqui, parar aqui, ser daqui.
O tempo infinito;
O passar dos segundos, contados - incontáveis;
O acordar inevitável, antecipado;
O estar acordado, quando o certo é dormir!
Um medo;
Um susto;
Um nada e o tudo.
Minha condição transitória;
Minha história em desalinho.
Meu sono roubado em noites de outrem;
Meu desejo estampado no reflexo de seus olhos.
O bater de meu coração;
A certeza incauta que ela vai dizer não, quando quero o sim.
A água que cai na torneira, o ralo e o cano, rumo ao mar, e eu noto;
O verso que cobre a loucura, meu halo insano, rumo ao lar, e anoto.
O texto que passa por mim;
Meu registro na areia quando a maré vem.
O verso que me move;
Interno, externo -
O reverso de toda a prosa.
Desassossego.
Um pé que insiste em tremer na busca por um ritmo onde música não existe;
Um poro que transborda em suor, onde a noite é seca, fria e triste.
Um rosto que foge ao encontro, ainda que os olhos busquem sua luz
Um desejo inócuo de mudança, despojada de sentido, ainda que alçada à condição de essência;
Um quebra cabeças, onde peças sem cor formam imagens que não conheço.
A condição de estar só, sem estar só, por só estar e ser;
A solidão de quem não vê que está com todos – que está com Deus.
Uma porta que insiste em ficar aberta – o vento que não passa por ela;
Um carro à distância que poderia vir aqui, parar aqui, ser daqui.
O tempo infinito;
O passar dos segundos, contados - incontáveis;
O acordar inevitável, antecipado;
O estar acordado, quando o certo é dormir!
Um medo;
Um susto;
Um nada e o tudo.
Minha condição transitória;
Minha história em desalinho.
Meu sono roubado em noites de outrem;
Meu desejo estampado no reflexo de seus olhos.
O bater de meu coração;
A certeza incauta que ela vai dizer não, quando quero o sim.
A água que cai na torneira, o ralo e o cano, rumo ao mar, e eu noto;
O verso que cobre a loucura, meu halo insano, rumo ao lar, e anoto.
O texto que passa por mim;
Meu registro na areia quando a maré vem.
O verso que me move;
Interno, externo -
O reverso de toda a prosa.
Desassossego.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
07:59
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
Desassossegos
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Canto Para A Minha Morte - Raul Seixas
Estive com a minha mãe no aniverssário dela. Ela me disse: meu filho já vi tantas mortes, tantos já partiram, mesmo com 86 anos sabendo que a morte é coisa certa, ela ainda me desassossega. Achei que esse seria um tema para a série "os desassossegos" e lembrei do velho Raul Seixas, que num tango cantou esse grande desassossego humano. E ai vai a letra com o link para quem quiser ouvir.
Canto Para A Minha Morte - (Desassossego III)
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho
Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48303/
Canto Para A Minha Morte - (Desassossego III)
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho
Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48303/
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
07:27
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Desassossego I
A volta.
“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto." Livro dos Desassossegos - Fernando Pessoa
Porque sempre nessa maldita hora esse incômodo vem tirar meu sono. Nem sei se posso chamar de “incômodo” esse enjôo do caralho, essa azia que me faz arrotar a bílis, essa náusea. Foram tantos os sapos que já engoli na vida que já devia estar acostumado, já devia fazer parte da minha dieta. Sapos dessa cidade louca e não as rãs fritas que apreciava tanto lá na minha terra. Se eu vomitasse a todos e a tudo que tem me feito mal, talvez eu melhorasse. Mas eu não consigo. Quero levantar, sei que o sono não mais virá. Mas também não tenho o que fazer. Estrebucho na cama estreita. Espero que o dia me aquiete.
Escuto no quartinho do lado mais uma vez a porra da vizinha a dar um esculacho no marido que chegou bêbado. Quando escuto essa confusão toda, mais a sirenes que não param de apitar me pergunto o que vim fazer nessa terra. Pensava que ia ficar rico. Me sinto enganado pelo meu próprio irmão. Quando ele enfiou no meu juízo a ilusão besta de que aqui era o paraíso. Um engodo, somos um engodo. Ele leva uma vida de merda e acha que é bem melhor do que os ouros que ficaram lá na casa de mãe. Lugarzinho que também não era lá grande coisa. Mas pelo menos havia espaço para respirar.
Estou com o peito apertado. Não é um infarto, eu não morro assim de repente. Pei puf! Nem isso me acontece. Fico aqui vegetando, definhando morrendo aos poucos.
Não tem marcela, não tem bicarbonato, não tem sonrizal, não tem chazinho de mãe que acalme essa azia. Se tivesse alguma grana no bolso levantava e ia tomar uma gelada. Quem sabe bêbado conseguisse dormir.
A cabeça ferve com pensamentos bestas. Quero voltar. Devo voltar? Terei coragem de voltar com uma mão na frente e outra atrás e assumir a minha derrota. Vim achando que seria um vitorioso. Ajuntaria uma grana e voltaria, teria um moto, um ponto comercial, e nenhum patrão filho de uma puta mandaria mais em mim. Nem eu me comando. Será que eu consigo voltar?
Ao meu lado no beliche, meu irmão ronca e peida indiferente ao meu desassossego. Não sei quem é mais idiota se ele ou eu que ainda acho que há alguma saída para essa minha vida de merda. Essa cidade faz tudo virar água suja que corre para um rio fedido, que se quer vai para o mar.
O clarão das luzes dos faróis dos carros parecem fantasmas que entram pela janela. Fico contando as sombras pra ver se o sono chega. Pareço ter ouvido de tuberculoso. Todos os sons das entranhas do prédio fazem um barulho enorme nas minhas oiças. Passos no corredor, choro de menino, descargas, ranger da porta de entrada que não para. Acho que nesse prédio mora quase a minha cidade inteira. Uns apinhados nos outros.
Os barulhos e os fantasmas da minha cabeça. Busco no passado um alento, mas tenho levado tanta porrada que tenho até medo de pensar em coisas boas. Mesmo as passadas, que não foram muitas. Mas pelo menos tinha a esperança, um fiapo de sonho de que quando viesse para cá o mundo se abriria para mim. Mundão. Sim, mundão, tão grande que me assustei na chegada. Outra paisagem tão diferente do que eu tinha imaginado. Tanta gente tanta confusão na rodoviária. A cidade se abriu para mim, no começo como um sonho, depois um pesadelo. O tempo é como formiga cortadeira. Na virada da noite ela acaba com todas as folhas de esperanças. Amanhecemos um galho desfolhado. O que vim buscar era uma coisinha melhor. Não é que não tivesse coragem pra enfrentar a labuta. Nunca fui frouxo. Trabalho desde menino, vendendo ovos para depois meu pai tomar de cana. Tinha que esconder o dinheiro. Agora sou eu que encho a cara. Estou cansado dessa cidade. Quero ir embora. Mas o asfalto parece prender as minhas pernas, roubar minhas energias, minha coragem. A cidade tem um visgo que prende a gente. Lembro quando na roça passava o visgo nos galhos pra pegar os canarinhos. Eles vinham, pousavam e depois ficavam tentando voar com os pezinhos presos no visgo. Passavam a cantar e avistar o céu azul de dentro de uma gaiola. Já não avisto um céu azul faz muito tempo. É como se a cinza da cidade tivesse pregado nos meus olhos. O médico da firma falou que não tenho nada nos olhos. É só embaçado. Lembro como uma névoa apareceu de repente nos olhos de minha avó quando mataram meu tio. É isso. Sinto uma tristeza e uma saudade que esfumaça e embaça minha visão.
Ah noite comprida!
Alguém ligou um rádio bem alto. Isso é hora? Assim com os olhos fechados, com a música tocando lá longe, lembro um passeio numa roda gigante.
Duas coisas cegam um homem: amor e desgosto.
Com o amor só avistamos a pessoa amada. Não vemos nenhum defeito e tudo é bom. Quanto tempo dura um amor? São nessas noites que sempre vem a lembrança dela. Já foi o tempo.
Não posso me iludir achando que ela ficou me esperando. Essa cegueira eu já não tenho. Fui covarde quando o pobre pai dela me perguntou se eu queria casar e se iria voltar. Não respondi que sim nem que não. Tava de mala pronta. Vim embora sem uma despedida. Por sorte ela não ficou grávida, esperando outro desvalido como eu. Dei muito desgosto.
Quero voltar, mas não tenho pra quem voltar.
Nem para a minha mãe, aquela que me pariu e quando morreu não teve um caixão descente, porque não tive como mandar dinheiro para comprar. Chorei como um borrego desmamado, quando recebi o telegrama de minha irmã mais nova pedindo um ajuda para o enterro. O estrupício do meu irmão, ainda teve a coragem de dizer que pra ser enterrado não tinha que ter luxo, a terra ia comer do mesmo jeito. Não ia enterrar o dinheiro dele junto com mãe. Foi nesse dia que achei que não tínhamos vindo do mesmo ventre e foi nesse dia que começou essa minha azia, e a mania de acordar sempre na mesma hora veio logo depois. Esse desassossego.
Desgostos todo mundo tem. Mas tem uns que são premiados na loteria do desgosto. Com desgosto ficamos cegos para o passado e para o futuro. É como nos filmes de vampiro que vi no cinema, quando olhamos no espelho não vemos nossa imagem. Pois somos nada, só desgosto.
Na escuridão da noite nesse quarto avisto tudo melhor do que de dia.
Estou cansando mais o sono não vem. Só assombros. Sinto os calos das mãos. O cabra anda, anda achando até que vai chegar ao fim da cidade para chegar no emprego, trabalha dez horas, pega pesado e depois... Pra nada. É vida não. É um assombro. O sujeito não ter um lugar a onde cair morto.
Não sou ingrato. O pecado da ingratidão eu não tenho na minha conta. Posso ter muitos outros. Esse quartinho que estou é melhor que está na rua ou debaixo de uma dessas pontes. Tenho um teto com uma mancha de mofo sobre a minha cabeça. Um dia ainda vou passar uma mão de cal. Foi meu primo que arrumou para nós. “Podia ser pior”, disse ele para nós quando entrou no ônibus de volta pra sua cidade, “o quartinho é bom e baratinho”. Se despediu e foi levando o rádio que eu tinha comprado com muito sacrifício como pagamento da sua bondade. Levou minhas músicas, meu rádio, mas não sou mal agradecido. Me deixou num canto e me levou os outros cantos mais formosos. Nesse prédio parece que Deus juntou tudo quando era de gente fodida e colocou para morar juntos. E disse: Quem sobreviver vai para o inferno que é um lugarzinho melhor.
Queria voltar ainda com alguma força para trabalhar ou mesmo pra morrer lá. Penso que pelo menos se voltar, serei enterrado na terra que nasci, seca, dura, mas estarei perto dos meus conhecidos.
“Pensamento torto esse seu”, me disse certa vez meu irmão. Talvez ele esteja certo, morto, os únicos conhecido que terei serão os vermes. E tanto faz os vermes dessa cidade como os de lá. Os de lá são mais “michoruquinhas”, tem menos gente pra comer.
Essa peste de dor de estômago, essa queimação, azia, esses fantasmas, esse barulho, esse peito apertado, essa agonia.
Se tudo isso não estivesse me incomodando, e fossem outros os tempos, até riria das minhas próprias besteiras e toda essa prosopopéia. Já fui alegre, gargalhador, cheio de pilhérias e anedotas. Depois de tomar uma meiota contava um monte de anedotas. Lá na firma um cara chegou a dizer que eu levava jeito pra palhaço. Não sei se era um elogio ou uma mangofa.
Perdi o costume do riso.
Estou seco como algumas cacimbas na época do verão. Você grita dentro delas e escuta somente o eco seco, diferente do eco úmido da época do inverno.
Quem dera poder voltar na época do inverno. Quem sabe no próximo.
Um copo de água talvez alivie essa minha azia, minha secura.
Levanto no escuro e vou até uma quartinha, que está sobre um banco no canto do quarto. Uma quartinha de barro, presente da minha mãe quando vim embora. Tateando procuro o caneco que geralmente fica na boca dela. Seco viro a quartinha no copo. Ela também está seca, vazia.
“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto." Livro dos Desassossegos - Fernando Pessoa
Porque sempre nessa maldita hora esse incômodo vem tirar meu sono. Nem sei se posso chamar de “incômodo” esse enjôo do caralho, essa azia que me faz arrotar a bílis, essa náusea. Foram tantos os sapos que já engoli na vida que já devia estar acostumado, já devia fazer parte da minha dieta. Sapos dessa cidade louca e não as rãs fritas que apreciava tanto lá na minha terra. Se eu vomitasse a todos e a tudo que tem me feito mal, talvez eu melhorasse. Mas eu não consigo. Quero levantar, sei que o sono não mais virá. Mas também não tenho o que fazer. Estrebucho na cama estreita. Espero que o dia me aquiete.
Escuto no quartinho do lado mais uma vez a porra da vizinha a dar um esculacho no marido que chegou bêbado. Quando escuto essa confusão toda, mais a sirenes que não param de apitar me pergunto o que vim fazer nessa terra. Pensava que ia ficar rico. Me sinto enganado pelo meu próprio irmão. Quando ele enfiou no meu juízo a ilusão besta de que aqui era o paraíso. Um engodo, somos um engodo. Ele leva uma vida de merda e acha que é bem melhor do que os ouros que ficaram lá na casa de mãe. Lugarzinho que também não era lá grande coisa. Mas pelo menos havia espaço para respirar.
Estou com o peito apertado. Não é um infarto, eu não morro assim de repente. Pei puf! Nem isso me acontece. Fico aqui vegetando, definhando morrendo aos poucos.
Não tem marcela, não tem bicarbonato, não tem sonrizal, não tem chazinho de mãe que acalme essa azia. Se tivesse alguma grana no bolso levantava e ia tomar uma gelada. Quem sabe bêbado conseguisse dormir.
A cabeça ferve com pensamentos bestas. Quero voltar. Devo voltar? Terei coragem de voltar com uma mão na frente e outra atrás e assumir a minha derrota. Vim achando que seria um vitorioso. Ajuntaria uma grana e voltaria, teria um moto, um ponto comercial, e nenhum patrão filho de uma puta mandaria mais em mim. Nem eu me comando. Será que eu consigo voltar?
Ao meu lado no beliche, meu irmão ronca e peida indiferente ao meu desassossego. Não sei quem é mais idiota se ele ou eu que ainda acho que há alguma saída para essa minha vida de merda. Essa cidade faz tudo virar água suja que corre para um rio fedido, que se quer vai para o mar.
O clarão das luzes dos faróis dos carros parecem fantasmas que entram pela janela. Fico contando as sombras pra ver se o sono chega. Pareço ter ouvido de tuberculoso. Todos os sons das entranhas do prédio fazem um barulho enorme nas minhas oiças. Passos no corredor, choro de menino, descargas, ranger da porta de entrada que não para. Acho que nesse prédio mora quase a minha cidade inteira. Uns apinhados nos outros.
Os barulhos e os fantasmas da minha cabeça. Busco no passado um alento, mas tenho levado tanta porrada que tenho até medo de pensar em coisas boas. Mesmo as passadas, que não foram muitas. Mas pelo menos tinha a esperança, um fiapo de sonho de que quando viesse para cá o mundo se abriria para mim. Mundão. Sim, mundão, tão grande que me assustei na chegada. Outra paisagem tão diferente do que eu tinha imaginado. Tanta gente tanta confusão na rodoviária. A cidade se abriu para mim, no começo como um sonho, depois um pesadelo. O tempo é como formiga cortadeira. Na virada da noite ela acaba com todas as folhas de esperanças. Amanhecemos um galho desfolhado. O que vim buscar era uma coisinha melhor. Não é que não tivesse coragem pra enfrentar a labuta. Nunca fui frouxo. Trabalho desde menino, vendendo ovos para depois meu pai tomar de cana. Tinha que esconder o dinheiro. Agora sou eu que encho a cara. Estou cansado dessa cidade. Quero ir embora. Mas o asfalto parece prender as minhas pernas, roubar minhas energias, minha coragem. A cidade tem um visgo que prende a gente. Lembro quando na roça passava o visgo nos galhos pra pegar os canarinhos. Eles vinham, pousavam e depois ficavam tentando voar com os pezinhos presos no visgo. Passavam a cantar e avistar o céu azul de dentro de uma gaiola. Já não avisto um céu azul faz muito tempo. É como se a cinza da cidade tivesse pregado nos meus olhos. O médico da firma falou que não tenho nada nos olhos. É só embaçado. Lembro como uma névoa apareceu de repente nos olhos de minha avó quando mataram meu tio. É isso. Sinto uma tristeza e uma saudade que esfumaça e embaça minha visão.
Ah noite comprida!
Alguém ligou um rádio bem alto. Isso é hora? Assim com os olhos fechados, com a música tocando lá longe, lembro um passeio numa roda gigante.
Duas coisas cegam um homem: amor e desgosto.
Com o amor só avistamos a pessoa amada. Não vemos nenhum defeito e tudo é bom. Quanto tempo dura um amor? São nessas noites que sempre vem a lembrança dela. Já foi o tempo.
Não posso me iludir achando que ela ficou me esperando. Essa cegueira eu já não tenho. Fui covarde quando o pobre pai dela me perguntou se eu queria casar e se iria voltar. Não respondi que sim nem que não. Tava de mala pronta. Vim embora sem uma despedida. Por sorte ela não ficou grávida, esperando outro desvalido como eu. Dei muito desgosto.
Quero voltar, mas não tenho pra quem voltar.
Nem para a minha mãe, aquela que me pariu e quando morreu não teve um caixão descente, porque não tive como mandar dinheiro para comprar. Chorei como um borrego desmamado, quando recebi o telegrama de minha irmã mais nova pedindo um ajuda para o enterro. O estrupício do meu irmão, ainda teve a coragem de dizer que pra ser enterrado não tinha que ter luxo, a terra ia comer do mesmo jeito. Não ia enterrar o dinheiro dele junto com mãe. Foi nesse dia que achei que não tínhamos vindo do mesmo ventre e foi nesse dia que começou essa minha azia, e a mania de acordar sempre na mesma hora veio logo depois. Esse desassossego.
Desgostos todo mundo tem. Mas tem uns que são premiados na loteria do desgosto. Com desgosto ficamos cegos para o passado e para o futuro. É como nos filmes de vampiro que vi no cinema, quando olhamos no espelho não vemos nossa imagem. Pois somos nada, só desgosto.
Na escuridão da noite nesse quarto avisto tudo melhor do que de dia.
Estou cansando mais o sono não vem. Só assombros. Sinto os calos das mãos. O cabra anda, anda achando até que vai chegar ao fim da cidade para chegar no emprego, trabalha dez horas, pega pesado e depois... Pra nada. É vida não. É um assombro. O sujeito não ter um lugar a onde cair morto.
Não sou ingrato. O pecado da ingratidão eu não tenho na minha conta. Posso ter muitos outros. Esse quartinho que estou é melhor que está na rua ou debaixo de uma dessas pontes. Tenho um teto com uma mancha de mofo sobre a minha cabeça. Um dia ainda vou passar uma mão de cal. Foi meu primo que arrumou para nós. “Podia ser pior”, disse ele para nós quando entrou no ônibus de volta pra sua cidade, “o quartinho é bom e baratinho”. Se despediu e foi levando o rádio que eu tinha comprado com muito sacrifício como pagamento da sua bondade. Levou minhas músicas, meu rádio, mas não sou mal agradecido. Me deixou num canto e me levou os outros cantos mais formosos. Nesse prédio parece que Deus juntou tudo quando era de gente fodida e colocou para morar juntos. E disse: Quem sobreviver vai para o inferno que é um lugarzinho melhor.
Queria voltar ainda com alguma força para trabalhar ou mesmo pra morrer lá. Penso que pelo menos se voltar, serei enterrado na terra que nasci, seca, dura, mas estarei perto dos meus conhecidos.
“Pensamento torto esse seu”, me disse certa vez meu irmão. Talvez ele esteja certo, morto, os únicos conhecido que terei serão os vermes. E tanto faz os vermes dessa cidade como os de lá. Os de lá são mais “michoruquinhas”, tem menos gente pra comer.
Essa peste de dor de estômago, essa queimação, azia, esses fantasmas, esse barulho, esse peito apertado, essa agonia.
Se tudo isso não estivesse me incomodando, e fossem outros os tempos, até riria das minhas próprias besteiras e toda essa prosopopéia. Já fui alegre, gargalhador, cheio de pilhérias e anedotas. Depois de tomar uma meiota contava um monte de anedotas. Lá na firma um cara chegou a dizer que eu levava jeito pra palhaço. Não sei se era um elogio ou uma mangofa.
Perdi o costume do riso.
Estou seco como algumas cacimbas na época do verão. Você grita dentro delas e escuta somente o eco seco, diferente do eco úmido da época do inverno.
Quem dera poder voltar na época do inverno. Quem sabe no próximo.
Um copo de água talvez alivie essa minha azia, minha secura.
Levanto no escuro e vou até uma quartinha, que está sobre um banco no canto do quarto. Uma quartinha de barro, presente da minha mãe quando vim embora. Tateando procuro o caneco que geralmente fica na boca dela. Seco viro a quartinha no copo. Ela também está seca, vazia.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
14:00
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Meus Desassossegos
Outro dia li "O livro dos desassossegos" de Fernando Pessoa. Já vinha querendo escrever contos com essa palavra "desassossego". Gosto dela assim como gosto de sossego. E para mim, assim como sossego é algo diurno, o desassossego é noturno. São nas horas noturnas que ele espreita, deixa a alma avexada. E cada vivente tem os seus, assim como teve o poeta Fernando Pessoa. Sendo assim resolvi publicar alguns desassossegos e convidei amigos e amigas a escreverem também seus textos sobre o tema, ou que me permitissem publicar outros textos já escritos, que de algum modo refletissem desassossegos. Deixo claro, que não temos a pretenção de nos compararmos ao poeta, apenas nele buscamos a inspiração no que é tão humano: o desassossego.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
21:15
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
quarta-feira, 17 de março de 2010
Sapucaya A grande Árvore

Contam os antigos que no começo do mundo nada existia.
Depois surgiu o Sol Aram[, que corria durante o dia, e a Lua Aamo, que dançava durante a noite no firmamento. Vez ou outra Aram esperava radiante Aamo aparecer para vê-la dançar.
Nesse tempo Sapucaya a Grande Árvore surgiu da união das forças de Iby a Terra, Ig as Águas, Ibytu o Vento.
Sapucaya era uma Árvore frondosa, bela. Seus últimos galhos beijavam as nuvens de tão altos que eram. E suas folhas cantavam quando a brisa soprava, e suas raízes profundas conheciam a intimidade de Iby a Terra, e dela se alimentavam. Somente ela a Grande Árvore assistia à corrida do Sol e à dança da Lua.
Certo dia, contemplando a beleza do firmamento, Sapucaya se sentiu só.
Depois surgiu o Sol Aram[, que corria durante o dia, e a Lua Aamo, que dançava durante a noite no firmamento. Vez ou outra Aram esperava radiante Aamo aparecer para vê-la dançar.
Nesse tempo Sapucaya a Grande Árvore surgiu da união das forças de Iby a Terra, Ig as Águas, Ibytu o Vento.
Sapucaya era uma Árvore frondosa, bela. Seus últimos galhos beijavam as nuvens de tão altos que eram. E suas folhas cantavam quando a brisa soprava, e suas raízes profundas conheciam a intimidade de Iby a Terra, e dela se alimentavam. Somente ela a Grande Árvore assistia à corrida do Sol e à dança da Lua.
Certo dia, contemplando a beleza do firmamento, Sapucaya se sentiu só.
Assim começa o novo livro de João Bosco A. Sousa, ilustrado pela Rita Vidal, que será lançado pela Nhambiquara Editora.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
15:12
2
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Lançamento do livro Toque de Letra
Ontem lançamos o livro Toque de Letra de Paulo César Carvalho. O encontro na Livraria da Vila foi muito alegre. Muita gente bonita. Numa noite de segunda feira fiquei a apreciar o encontro dos meus amigos e dos amigos do Carvalho e da Marina. Coisa mais maravilhosa é quando gentes se juntam ao redor de um punhado de poesias. A mágica de um lançamento de um livro é poder congregar pessoas queridas entorno de um livro, de uma idéia, de um sonho. Pois afinal escrever e produzir um livro é um ofício que ainda requer ousadia. Sei que as vezes é amedrontador ou desanimador quando entramos numa livraria e vemos tantos títulos. Aquele que escreve se amedronda, fica acanhado achando que tudo aquilo que ele queria ou quer dizer já foi dito. Ser mais um no meio daquelas prateleiras, "será que meus escritos trarão algo novo..." O editor também fica um tanto desacossoado, quase desanima, pricipalmente um pequeno editor. "Meu Deus a concorrencia é muita! Só a livraria vai levar 50% do preço de capa, o gargalo das distribuidoras que vão comer mais um tiquinho, como fazer propaganda do livro que deu tanto trabalho para ser produzido???"
Lemos as últimas pesquisas e estas dizem que o brasileiro ler pouquíssimo, talvez um livro e meio ao ano. Tanto o escritor como o editor quase chegam ao beira de um ataque de depressão diante de tais notícias...Porém, o livro fica pronto. Depois de tantos percalços, medos, noites insones o livro é entregue. Aquele cheirinho de livro novo. Nos apaixonamos pela capa, alisamos as folhas virgens de olhares outros quase de modo erótico. Tateamos o livro como se ele fosse nos segredar algum mistério. Nos enchemos de coragem e vamos para o lançamento. Será que os amigos virão? Aqueles para quem eu dediquei o livro ficaram satisfeitos? Uma mistura de orgulho, satisfação e um medo do caralho da crítica toma conta de tudo. No dia o coração bate outra batida. E assim como no teatro, onde toda noite de apresentação daquela peça que está a um ano em cartaz é para o ator uma primeira noite, o dia do lançamento, não importa se do primeiro livro ou do décimo faz o cabra tremer nas bases. Se é um editor solidário e que aposta no autor ele também treme e se alegra quando a casa enche, os amigos chegam e podemos ver o autor entre o acanhamento e a alegria mais besta de menino se entregar aos autógrafos. É bem verdade que já vi cessões de autógrafos extremamente chatas, onde o autor fazia aquilo quase como uma obrigação insuportável e puto por você está ali comprando um livro dele e ainda pedindo um mísero autógrafo. Alguns beirava a deselegância. Assim como tinha os que buscavam o autógrafo e achava aquela rabugisse o máximo, um certo masoquísmo. Tenho gosto pra isso não. Gosto do autor entregue ao seu público.
Assim como foi a noite de ontem. Foi bonita alegre, cheia de energia. O autor se derramando em agradecimentos, álacre. E como já disse nas palavras de editor no livro Toque de Letra, fiquei muito feliz de poder botar mais poesias num mundo que está tão árido, mercantilista e deselegante. Parabens para o Carvalho o poeta e Marina que ajudou na produção desse novo rebento da Nhambiquara
Lemos as últimas pesquisas e estas dizem que o brasileiro ler pouquíssimo, talvez um livro e meio ao ano. Tanto o escritor como o editor quase chegam ao beira de um ataque de depressão diante de tais notícias...Porém, o livro fica pronto. Depois de tantos percalços, medos, noites insones o livro é entregue. Aquele cheirinho de livro novo. Nos apaixonamos pela capa, alisamos as folhas virgens de olhares outros quase de modo erótico. Tateamos o livro como se ele fosse nos segredar algum mistério. Nos enchemos de coragem e vamos para o lançamento. Será que os amigos virão? Aqueles para quem eu dediquei o livro ficaram satisfeitos? Uma mistura de orgulho, satisfação e um medo do caralho da crítica toma conta de tudo. No dia o coração bate outra batida. E assim como no teatro, onde toda noite de apresentação daquela peça que está a um ano em cartaz é para o ator uma primeira noite, o dia do lançamento, não importa se do primeiro livro ou do décimo faz o cabra tremer nas bases. Se é um editor solidário e que aposta no autor ele também treme e se alegra quando a casa enche, os amigos chegam e podemos ver o autor entre o acanhamento e a alegria mais besta de menino se entregar aos autógrafos. É bem verdade que já vi cessões de autógrafos extremamente chatas, onde o autor fazia aquilo quase como uma obrigação insuportável e puto por você está ali comprando um livro dele e ainda pedindo um mísero autógrafo. Alguns beirava a deselegância. Assim como tinha os que buscavam o autógrafo e achava aquela rabugisse o máximo, um certo masoquísmo. Tenho gosto pra isso não. Gosto do autor entregue ao seu público.
Assim como foi a noite de ontem. Foi bonita alegre, cheia de energia. O autor se derramando em agradecimentos, álacre. E como já disse nas palavras de editor no livro Toque de Letra, fiquei muito feliz de poder botar mais poesias num mundo que está tão árido, mercantilista e deselegante. Parabens para o Carvalho o poeta e Marina que ajudou na produção desse novo rebento da Nhambiquara
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
13:10
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
toque de letra. Poesia. Novo livro Nhambiquara
domingo, 20 de setembro de 2009
ensaio cinquentenário

Ensaio cinquentenário.
Tem uma hora em que não podemos evitar de fazer uma reflexão sobre o envelhecer. O termo reflexão é bom, pois ele surge do reflexo que o espelho nos traz, dos reflexos que os outros mais jovens ou mais velhos nos provocam.
Chega o dia em que uma mudança ocorre sutil, às vezes na forma de um sonho, uma sensação, uma pequena dor, um prazer diferente, uma noite insone, um gesto que é feito ou que não pode ser feito, uma palavra ou um olhar que nos é dirigido... e então descobrimos que não somos mais jovem, mais, que estamos envelhecendo.
Vêm milhões de comparações. Afinal, se o tempo é relativo como afirma à física, na nossa breve existência humana ele adquire sentido quando usamos medidas de comparação. Tendemos a nos comparar pela medida dos outros ou em relação a outro.
Comparemos nossa existência, nosso vigor, nossa aparência, nossos feitos, nossas conquistas, nossas derrotas pelo crivo do tempo. Este sim é um devorador de seus filhos. Nada sobrevive ao tempo. O que pode resistir ao tempo? Tudo adquire sentido mediante o tempo. Em quanto tempo? Quanto tempo durou? Quanto tempo ainda eu posso? Quanto tempo ainda eu tenho? O que aprendi nesse tempo? “Tempo rei, oh tempo rei! Não se iludam. Não me iludo. Tudo agora mesmo Pode estar por um segundo...Tempo Rei!”Talvez seja o tempo a nossa ultima quimera.
Quando meus parentes lá na Serra da Capivara resolveram deixar o desenho rupestre de um parto eles queriam deixar na dura pedra uma marca da vida breve e frágil. Assim fazemos desde muito tempo. Precisamos criar marcas, balizas para que no caos do tempo longo e infinito em que somos todos lançados, possamos produzir um sentido existencial e afastar o medo do fim. É o fim que nos assombra. Quando dele mais nos aproximamos indagamos se gastamos ou usufruímos o tempo ganho. Nunca haveremos de ter uma resposta absoluta. Essa relação diária de perdas e ganhos que tomamos consciência é algo inquietante. Às vezes divertida noutros angustiante.
Certa feita, eu, meu filho e alguns de seus amigos mijávamos ao relento, no mato. Coisa de meninos. Prazenteiros, nós observávamos a curva do jorro e o barulho na grama quando um deles fez uma observação quase cruel: Ih! O Tio não consegue mijar longe. De fato. Respondi que eles também não conseguiam mijar por tanto tempo quanto eu. Tinha uma bexiga de camelo. Se já não conseguia mover as pedrinhas de naftalina no mictório do bar pelo menos conseguia segurar por mais tempo a mijada e até mesmo o gozo. Coisas que só aprendemos ou adquirimos com a idade. É um ponto de vista, do jorro, da vida.
No bar a mesa ficou cheia. Pessoas de diferentes idades. Um encanto de encontro. No canto uma moçoila de beleza ímpar, com o frescor da juventude a lhe aumentar a áurea encantadora. Botei reparo. Não tinha a intenção de seduzi-la, mais bem que me lembrei de um tempo passado, em que com certeza, moveria mundos ou pedrinhas de naftalina para tê-la em minha companhia. A conversa rolou e em determinado momento veio um lampejo de sedução. E o que agora seduzia era a conversa boa e inteligente. Tão agradável era a prosa e a sedução das palavras, das histórias, que naquele instante sexo oral adquiriu outro sentido. Coisas ou ganhos que o tempo nos traz. Se vivermos a nossa juventude com a devida intensidade, coragem e gozo quando o tempo chegar para cobrar sua fatura, nós teremos não somente envelhecidos, posto que é inevitável para quem vive, teremos ficado antigos. E é uma diferença importante. Carro velho você se livra, mas um carro antigo você coleciona.
As perdas são muitas e cada dia desde que nascemos é um pouco a mais. Mesmo que tenhamos a ilusão que estamos sempre ganhando. Essa ilusão acaba talvez depois dos quarenta ou cinqüenta. Se estivermos atentos há um momento em que sabemos, que não teremos tempo para realizar todos os sonhos do mundo, mas que ainda podemos sonhar. E não adianta sofrer nem com futuro nem lamentar o tempo passado. Aliás, dizia Sêneca duas coisas importantes, uma sobre o sofrer antes, que segundo ele é sofre mais que o necessário e a outra era sobre a velhice “Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres.”
Se meu pai não tinha a erudição de um Sêneca, pois afinal era um sertanejo com pouca instrução ele tinha uma sabedoria admirável. Ele dizia de forma reta: “envelhecer é uma merda! Mas veja bem. Agora que pra fazer uma viagem o tempo é tão curto e não é mais em lombo de burro; que pra falar com alguém tão longe é só pegar o telefone; para beber uma água não precisamos mais ir buscar no barreiro, é só abrir a torneira; agora que batemos num botão, temos luz elétrica e o melhor, as moças não escondem mais os joelhos naqueles vestidos... Eita, agora que tudo está tão bonzinho ter que deixar essa vida, é triste, quero não!” A gente aprende com os antigos!
Quero a vida com largura e comprimento. Se não for possível ter os dois, que me seja larga.
Para viver bem e envelhecer bem, temos que ter certo desapego. Quisera ter o desapego budista, saber do vazio e não preocupar com a poeira que possa se acumular no espelho da minha mente, já que tudo é vazio. Sei que tudo é ilusão, tudo é passageiro mais ainda fico preso e procuro limpar a poeira que nesses anos vividos deixei acumular. Sempre me atirei na vida e agora que sei que ela se move rapidamente. Mais ávido por ela estou.
Já não tenho a ilusão juvenil de que viverei para sempre, procuro não desperdiçar nenhuma gota da água ou do vinho que bebo, nem um naco da boa comida que recebo, nenhuma fragrância do cheiro que me seduz, nenhuma palavra bem dita. Até mesmo as limitações, dores, frustrações que me acometem procuro receber. Tudo é presente, tudo é um presente. Não é que estoicamente aprecie, porém, começo a perceber que não vou conseguir esticar um minuto a mais da minha vida. Encurtar talvez seja mais fácil. Mas tenho dúvida se de fato podemos encurtar ou acrescentar um segundo a mais. Essa arrogância eu não tenho. Sei que muitos tentam esticar, a pele, o pau, eliminar as rugas, os sonhos frustrados, as gorduras. Querem ser o que na verdade o que nunca foram e procuram ser “modernos”, conectados com tudo, a tudo e a todos, menos consigo mesmo. Acho ótimo quando consigo ter a rara sensação de que estou conectado a todos e as vezes que isso me ocorreu estava na mais absoluta “solidão” sem telefone, internet, ou estava na companhia de uma criança ou de um cão. Um aprendizado. Nada tenho contra essas boas facilidades, novos brinquedos que podem nos aproximar. Antes, os pensamentos saudosos ficavam presos, demoravam em serem revelados, anunciados, enviados, hoje em segundos nos revelamos gritamos em torpedos a nossa saudade. Gosto disso.
Em um evento em que se debatia sobre sexualidade alguém quis criar uma desculpa para a escassez das trepadas e trouxe aquela pérola de discurso: “o que importa é qualidade e não a quantidade”. Caralho! Importa a quantidade sim e se for uma trepada bem dada, bem feita é uma maravilha. Sempre achei que sexo e trepar são como democracia para um país, se é pouca é bom, se é muita é excelente. É lógico que com a idade manter o vigor sexual requer mais exercícios. É como qualquer outro exercício físico. Se parar desacostuma, atrofia, perde o rebolado. Sabemos que não será mais como na juventude onde os hormônios saiam pelos poros, a qualquer toque de pele era pau duro na certa, um beijo de língua..vixe Maria. Mas com o tempo descobrimos a maravilha de um beijo de língua, as sutilezas dos toques, das carícias, dos afetos e porque não, das maravilhas das indústrias farmacêuticas.
Do amor. Não é que o amor e o sexo tenham a obrigação de andarem juntos ou separados. Os dois são bons e importantes de qualquer jeito. Cada um tem a sua singularidade e complexidade. Mas assim como sexo muda com a idade o amor também. Não posso esquecer o belíssimo trecho do livro O amor nos tempos do cólera em que Firmina Daza escreve numa carta para Florentino Ariza: “deixe que o tempo passe e já veremos o que traz.” Acalmava ela a ansiosa espera de cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias de Florentino. Não importa o tempo para os amantes. Dizem que ele pode curar as dores de um amor que acabou, pode até nos fazer esquecer um amor, mas não pode impedir que o amor venha, e há quem diga que o amor é capaz de vencer o tempo. Muitas vezes o amor fica lá quieto num corpo velho, adormecido, mas quando sopra o misterioso vento do imortal desejo ele se assanha, fica cheio de frescor, o coração bate forte e mesmo com “o cheiro azedo da idade” o beijo pode ser cálido. E haverá tantas coisas a serem ditas... O amor é pra ser vivido em qualquer idade. O tempo só o torna mais saboroso, mais lapidado, menos cheio de posses e ciúmes tolos, até porque a brevidade da vida nos ensina que não temos tempo a perder.
Já não mijo tão longe, já não como tudo sem sentir azia, já não bebo todas, já não fumo tudo, já não.... Se tem um monte de coisas que já não faço, algumas delas eu estou feliz em não mais fazer. Já não acho que tenho razão em tudo, já não faço ou tenho a estupidez de antes, as grossuras, as indelicadezas. Já não acho que aqueles que não são do meu grupo são menos qualquer coisa. Não deixei de ser radical, mas deixei de ser sectário. Não deixei de acreditar na capacidade humana de fazer coisas boas, belas. Apenas aprendi que somos capazes de fazer também coisas horrorosas. A revolução? Ela é permanente e tem que ser global e começa dentro de mim. E mais do que nunca, não admitirei que ninguém governe meu espírito. Pensando bem...talvez a enfermeira bonita que contratarei quando estive meio baleado.
E para concluir lembro mais uma vez Sêneca “ Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. ..Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro”. Chega de desperdícios que venham mais cinqüenta anos.
Tem uma hora em que não podemos evitar de fazer uma reflexão sobre o envelhecer. O termo reflexão é bom, pois ele surge do reflexo que o espelho nos traz, dos reflexos que os outros mais jovens ou mais velhos nos provocam.
Chega o dia em que uma mudança ocorre sutil, às vezes na forma de um sonho, uma sensação, uma pequena dor, um prazer diferente, uma noite insone, um gesto que é feito ou que não pode ser feito, uma palavra ou um olhar que nos é dirigido... e então descobrimos que não somos mais jovem, mais, que estamos envelhecendo.
Vêm milhões de comparações. Afinal, se o tempo é relativo como afirma à física, na nossa breve existência humana ele adquire sentido quando usamos medidas de comparação. Tendemos a nos comparar pela medida dos outros ou em relação a outro.
Comparemos nossa existência, nosso vigor, nossa aparência, nossos feitos, nossas conquistas, nossas derrotas pelo crivo do tempo. Este sim é um devorador de seus filhos. Nada sobrevive ao tempo. O que pode resistir ao tempo? Tudo adquire sentido mediante o tempo. Em quanto tempo? Quanto tempo durou? Quanto tempo ainda eu posso? Quanto tempo ainda eu tenho? O que aprendi nesse tempo? “Tempo rei, oh tempo rei! Não se iludam. Não me iludo. Tudo agora mesmo Pode estar por um segundo...Tempo Rei!”Talvez seja o tempo a nossa ultima quimera.
Quando meus parentes lá na Serra da Capivara resolveram deixar o desenho rupestre de um parto eles queriam deixar na dura pedra uma marca da vida breve e frágil. Assim fazemos desde muito tempo. Precisamos criar marcas, balizas para que no caos do tempo longo e infinito em que somos todos lançados, possamos produzir um sentido existencial e afastar o medo do fim. É o fim que nos assombra. Quando dele mais nos aproximamos indagamos se gastamos ou usufruímos o tempo ganho. Nunca haveremos de ter uma resposta absoluta. Essa relação diária de perdas e ganhos que tomamos consciência é algo inquietante. Às vezes divertida noutros angustiante.
Certa feita, eu, meu filho e alguns de seus amigos mijávamos ao relento, no mato. Coisa de meninos. Prazenteiros, nós observávamos a curva do jorro e o barulho na grama quando um deles fez uma observação quase cruel: Ih! O Tio não consegue mijar longe. De fato. Respondi que eles também não conseguiam mijar por tanto tempo quanto eu. Tinha uma bexiga de camelo. Se já não conseguia mover as pedrinhas de naftalina no mictório do bar pelo menos conseguia segurar por mais tempo a mijada e até mesmo o gozo. Coisas que só aprendemos ou adquirimos com a idade. É um ponto de vista, do jorro, da vida.
No bar a mesa ficou cheia. Pessoas de diferentes idades. Um encanto de encontro. No canto uma moçoila de beleza ímpar, com o frescor da juventude a lhe aumentar a áurea encantadora. Botei reparo. Não tinha a intenção de seduzi-la, mais bem que me lembrei de um tempo passado, em que com certeza, moveria mundos ou pedrinhas de naftalina para tê-la em minha companhia. A conversa rolou e em determinado momento veio um lampejo de sedução. E o que agora seduzia era a conversa boa e inteligente. Tão agradável era a prosa e a sedução das palavras, das histórias, que naquele instante sexo oral adquiriu outro sentido. Coisas ou ganhos que o tempo nos traz. Se vivermos a nossa juventude com a devida intensidade, coragem e gozo quando o tempo chegar para cobrar sua fatura, nós teremos não somente envelhecidos, posto que é inevitável para quem vive, teremos ficado antigos. E é uma diferença importante. Carro velho você se livra, mas um carro antigo você coleciona.
As perdas são muitas e cada dia desde que nascemos é um pouco a mais. Mesmo que tenhamos a ilusão que estamos sempre ganhando. Essa ilusão acaba talvez depois dos quarenta ou cinqüenta. Se estivermos atentos há um momento em que sabemos, que não teremos tempo para realizar todos os sonhos do mundo, mas que ainda podemos sonhar. E não adianta sofrer nem com futuro nem lamentar o tempo passado. Aliás, dizia Sêneca duas coisas importantes, uma sobre o sofrer antes, que segundo ele é sofre mais que o necessário e a outra era sobre a velhice “Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres.”
Se meu pai não tinha a erudição de um Sêneca, pois afinal era um sertanejo com pouca instrução ele tinha uma sabedoria admirável. Ele dizia de forma reta: “envelhecer é uma merda! Mas veja bem. Agora que pra fazer uma viagem o tempo é tão curto e não é mais em lombo de burro; que pra falar com alguém tão longe é só pegar o telefone; para beber uma água não precisamos mais ir buscar no barreiro, é só abrir a torneira; agora que batemos num botão, temos luz elétrica e o melhor, as moças não escondem mais os joelhos naqueles vestidos... Eita, agora que tudo está tão bonzinho ter que deixar essa vida, é triste, quero não!” A gente aprende com os antigos!
Quero a vida com largura e comprimento. Se não for possível ter os dois, que me seja larga.
Para viver bem e envelhecer bem, temos que ter certo desapego. Quisera ter o desapego budista, saber do vazio e não preocupar com a poeira que possa se acumular no espelho da minha mente, já que tudo é vazio. Sei que tudo é ilusão, tudo é passageiro mais ainda fico preso e procuro limpar a poeira que nesses anos vividos deixei acumular. Sempre me atirei na vida e agora que sei que ela se move rapidamente. Mais ávido por ela estou.
Já não tenho a ilusão juvenil de que viverei para sempre, procuro não desperdiçar nenhuma gota da água ou do vinho que bebo, nem um naco da boa comida que recebo, nenhuma fragrância do cheiro que me seduz, nenhuma palavra bem dita. Até mesmo as limitações, dores, frustrações que me acometem procuro receber. Tudo é presente, tudo é um presente. Não é que estoicamente aprecie, porém, começo a perceber que não vou conseguir esticar um minuto a mais da minha vida. Encurtar talvez seja mais fácil. Mas tenho dúvida se de fato podemos encurtar ou acrescentar um segundo a mais. Essa arrogância eu não tenho. Sei que muitos tentam esticar, a pele, o pau, eliminar as rugas, os sonhos frustrados, as gorduras. Querem ser o que na verdade o que nunca foram e procuram ser “modernos”, conectados com tudo, a tudo e a todos, menos consigo mesmo. Acho ótimo quando consigo ter a rara sensação de que estou conectado a todos e as vezes que isso me ocorreu estava na mais absoluta “solidão” sem telefone, internet, ou estava na companhia de uma criança ou de um cão. Um aprendizado. Nada tenho contra essas boas facilidades, novos brinquedos que podem nos aproximar. Antes, os pensamentos saudosos ficavam presos, demoravam em serem revelados, anunciados, enviados, hoje em segundos nos revelamos gritamos em torpedos a nossa saudade. Gosto disso.
Em um evento em que se debatia sobre sexualidade alguém quis criar uma desculpa para a escassez das trepadas e trouxe aquela pérola de discurso: “o que importa é qualidade e não a quantidade”. Caralho! Importa a quantidade sim e se for uma trepada bem dada, bem feita é uma maravilha. Sempre achei que sexo e trepar são como democracia para um país, se é pouca é bom, se é muita é excelente. É lógico que com a idade manter o vigor sexual requer mais exercícios. É como qualquer outro exercício físico. Se parar desacostuma, atrofia, perde o rebolado. Sabemos que não será mais como na juventude onde os hormônios saiam pelos poros, a qualquer toque de pele era pau duro na certa, um beijo de língua..vixe Maria. Mas com o tempo descobrimos a maravilha de um beijo de língua, as sutilezas dos toques, das carícias, dos afetos e porque não, das maravilhas das indústrias farmacêuticas.
Do amor. Não é que o amor e o sexo tenham a obrigação de andarem juntos ou separados. Os dois são bons e importantes de qualquer jeito. Cada um tem a sua singularidade e complexidade. Mas assim como sexo muda com a idade o amor também. Não posso esquecer o belíssimo trecho do livro O amor nos tempos do cólera em que Firmina Daza escreve numa carta para Florentino Ariza: “deixe que o tempo passe e já veremos o que traz.” Acalmava ela a ansiosa espera de cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias de Florentino. Não importa o tempo para os amantes. Dizem que ele pode curar as dores de um amor que acabou, pode até nos fazer esquecer um amor, mas não pode impedir que o amor venha, e há quem diga que o amor é capaz de vencer o tempo. Muitas vezes o amor fica lá quieto num corpo velho, adormecido, mas quando sopra o misterioso vento do imortal desejo ele se assanha, fica cheio de frescor, o coração bate forte e mesmo com “o cheiro azedo da idade” o beijo pode ser cálido. E haverá tantas coisas a serem ditas... O amor é pra ser vivido em qualquer idade. O tempo só o torna mais saboroso, mais lapidado, menos cheio de posses e ciúmes tolos, até porque a brevidade da vida nos ensina que não temos tempo a perder.
Já não mijo tão longe, já não como tudo sem sentir azia, já não bebo todas, já não fumo tudo, já não.... Se tem um monte de coisas que já não faço, algumas delas eu estou feliz em não mais fazer. Já não acho que tenho razão em tudo, já não faço ou tenho a estupidez de antes, as grossuras, as indelicadezas. Já não acho que aqueles que não são do meu grupo são menos qualquer coisa. Não deixei de ser radical, mas deixei de ser sectário. Não deixei de acreditar na capacidade humana de fazer coisas boas, belas. Apenas aprendi que somos capazes de fazer também coisas horrorosas. A revolução? Ela é permanente e tem que ser global e começa dentro de mim. E mais do que nunca, não admitirei que ninguém governe meu espírito. Pensando bem...talvez a enfermeira bonita que contratarei quando estive meio baleado.
E para concluir lembro mais uma vez Sêneca “ Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. ..Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro”. Chega de desperdícios que venham mais cinqüenta anos.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
20:37
3
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Meus velhos livros
Meus velhos livros.
Certo dia no meio de uma polêmica de como organizar minha biblioteca meu afilhado me perguntou porque eu tinha tantos livros e se eu já tinha lido todos. A pergunta talvez fosse simples e merecesse uma resposta simples, curta. No entanto, eu estava com tempo e respondi de maneira longa, quase uma história. Fiz assim como fazem as mulheres todas as vezes que alguém comenta a respeito de um vestido que elas estão usando. Elas contam uma história.
Contei para ele o quanto gostava de ler gibis quando era um guri da idade dele. O apreço pelos gibis me fez gostar da leitura. Lembrei do dia em que ganhei meu primeiro livro.
Era madrugada do primeiro dia de férias, ainda meio sonolento, vi quando meu pai chegou da rodoviária com a minha irmã que morava em Natal. Além da saudade da irmã que tinha ido embora pra capital, tinha sempre uma grande expectativa dos presentes que ela trazia. Uma besteirinha qualquer era um presentão. Naquela vez ela não me trouxe nenhum brinquedo ou alguma guloseima, me trouxe um livro. Um belo livro. Lembro até do cheiro de tinta nova. Capa dura sem muitas figuras e com muitas palavras. A Vida e as Estranhas Aventuras de Robinson Crusoé um clássico, que na época eu nem sabia o que era um clássico ou mesmo um best-seler. Eu menino pouco afeito ao futebol, devido a minha miopia, resolvi canalizar as minhas energias para a leitura e as punhetas normais de um guri da minha idade. Robinson Crusoé veio dar um colorido novo à minha vida de menino lá do cariri. A aventura, a solidão, a engenhosidade e as inquietações daquele naufrago se instalaram na minha alma assim como o gosto pelos livros. Nunca tinha visto o mar e o livro me fez navegar, saber das tempestades, dos piratas, como sobreviver. Vejam só, um livro inglês de 1719 foi mexer com o imaginário de um menino nordestino em 1969. No sítio da minha tia trepado nas mangueiras somente na companhia do cachorro surubim, meu Sexta Feira, me imaginava naufrago a enfrentar piratas. Daquele dia em diante tomei gosto pelos livros. Lia de tudo. Os pequenos livros de faroeste americano, livros com as histórias dos santos, a bíblia, cordel, até o dia em que meu professor Ribamar meu deu um clássico brasileiro: Dom Casmurro. O fantástico é o que uma história bem contada nos faz, além de nos transportar para a época narrada, pode nos proporcionar a mistura de nossas histórias e com elas aprender pra vida. Até mesmo achar que nossa história é um livro ou que o autor nos conhece, sabe das nossas dores misteriosamente. Vejam só, assim como Bentinho minha mãe queria que eu fosse padre. Aí já deu o gancho! Estava apaixonado por Lavinha minha vizinha, nela meus olhos viam minha Capitu. Eita! Tão interessado e envolvido na história de Machado que descuidei de Lavinha, que foi se enamorar de Emanuel que tinha bicicleta, sabia jogar futebol e estava cagando e andando para os livros de romance. Mas não desanimei. Se os livros eram mais fieis não desisti de amar e desejar as mulheres. Eles os livros ate me ensinaram muitas coisas boas, bonitas para dizer nas horas certas de encantamentos e desfrutes. Poemas, histórias de amor, de aventuras, tratados filosóficos, relatos, biografias de pessoas tão ilustres tudo eu ia apreciando, procurando, curiando, querendo aprender, saber...o que? Pra conhecer uma outra alma conheça primeiro a tua já disse alguém em algum livro já lido. Deve estar lá na estante me esperando para ser relido e fazer eu descobrir que nunca conhecemos profundamente a nossa alma, muito menos as das mulheres sejam elas Capitu, Julieta, Maria Homem, Gabriela, Clarice, Guiomar, Luisa e tantas outras. Ao revisitarmos as nossas entranhas nos surpreendemos, assim como um livro quando é relido e observamos nuances, detalhes, frases preciosas que na primeira leitura não vimos. Até porque não estávamos preparados. É...Tem disso. Alguns livros devem ser lidos na maturidade certa e isso é inexplicável, pois cada um tem o seu momento certo. Um livro pode trucidar uma alma assim como transformá-la completamente. A Mãe, de Gorki, para mim foi um livro que me deu esperança, crença em um ideal e acho que o li no momento certo. Os nomes russos eram um horror para minha compreensão, mas a coragem, a luta revolucionária, o amor da mãe para entender aquele espírito rebelde, a amizade lapidaram minha alma juvenil... Já o livro Crime e Castigo comecei a ler num momento inoportuno. Não estava preparado. Tinha pesadelos terríveis, acordava suado, assustado e tive que parar de ler. Somente tempos depois foi que consegui ler sem tanto sofrimento. Mas se os livros podem provocar sofimento também trazem as delicias o contato com os prazeres mundanos. A sensualidade e erotísmo com que Jorge Amado descrevia as histórias de amores no meio dos reboliços das brigas dos coronéis ou mesmo a singela passagem em que Dora se entregou a Pedro Bala me comoviam e me deixavam excitado. Muito hormônio, rapaizote, qualquer insinuação era motivo para os pensamentos fantasiosos. Imaginação não me faltava e os livros vieram pra ampliar as possibilidades criativas.
Mostrei para o meu afilhado dois livros que tenho muito apreço. Um eu não consigo ler uma palavra. Moby Dick romance do autor americano Herman Melville edição em alemão de 1954. O livro é lindo, tem uma capa de madeira as ilustrações feitas a bico de pena. A abertura era inteligível mesmo em alemão, era forte, talvez por que já conhecesse da versão em portugues: " So nennt mich denn Ismael. Chamai-me Ismael. Se não conheço a língua posso apreciar a forma, o feitio caprichoso, a beleza dos desenhos. Nem tudo a gente precisa entender para apreciar. O outro é um livro de poemas de Gonçalves Dias que em 2010 fará cem anos. Cinqüenta anos mais velho do que eu. Os poemas são lindos, o livro é pequeno com uma capa vermelha surrada, folhas amarelas que pedem cuidado, delicadeza no manuseio. E nele mais uma lembrança de quando menino tive que decorar "Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá". Um livro de cem anos.
Quando nos meus cem anos eu chegar, caso eu chegue lá, eu o darei para o meu neto e talvez ele nem entenda o que é um livro ou porque eu guardei um “objeto” tão estranho, assim como o disco de vinil é para alguns jovens de hoje. Mas eu serei um velho assim como o livro e espero ainda estar cheio de poemas. Espero que meu neto que ainda virá, não precise entender tudo, o todo para amar um presente que veio do passado e que por muito tempo criou futuros. E ele lerá para mim: "Houve um tempo em que eu pedia uma mulher ao meu Deos. Uma mulher que eu amasse. Um dos belos anjos seus", Estão lá os livros a minha espera.
Certo dia no meio de uma polêmica de como organizar minha biblioteca meu afilhado me perguntou porque eu tinha tantos livros e se eu já tinha lido todos. A pergunta talvez fosse simples e merecesse uma resposta simples, curta. No entanto, eu estava com tempo e respondi de maneira longa, quase uma história. Fiz assim como fazem as mulheres todas as vezes que alguém comenta a respeito de um vestido que elas estão usando. Elas contam uma história.
Contei para ele o quanto gostava de ler gibis quando era um guri da idade dele. O apreço pelos gibis me fez gostar da leitura. Lembrei do dia em que ganhei meu primeiro livro.
Era madrugada do primeiro dia de férias, ainda meio sonolento, vi quando meu pai chegou da rodoviária com a minha irmã que morava em Natal. Além da saudade da irmã que tinha ido embora pra capital, tinha sempre uma grande expectativa dos presentes que ela trazia. Uma besteirinha qualquer era um presentão. Naquela vez ela não me trouxe nenhum brinquedo ou alguma guloseima, me trouxe um livro. Um belo livro. Lembro até do cheiro de tinta nova. Capa dura sem muitas figuras e com muitas palavras. A Vida e as Estranhas Aventuras de Robinson Crusoé um clássico, que na época eu nem sabia o que era um clássico ou mesmo um best-seler. Eu menino pouco afeito ao futebol, devido a minha miopia, resolvi canalizar as minhas energias para a leitura e as punhetas normais de um guri da minha idade. Robinson Crusoé veio dar um colorido novo à minha vida de menino lá do cariri. A aventura, a solidão, a engenhosidade e as inquietações daquele naufrago se instalaram na minha alma assim como o gosto pelos livros. Nunca tinha visto o mar e o livro me fez navegar, saber das tempestades, dos piratas, como sobreviver. Vejam só, um livro inglês de 1719 foi mexer com o imaginário de um menino nordestino em 1969. No sítio da minha tia trepado nas mangueiras somente na companhia do cachorro surubim, meu Sexta Feira, me imaginava naufrago a enfrentar piratas. Daquele dia em diante tomei gosto pelos livros. Lia de tudo. Os pequenos livros de faroeste americano, livros com as histórias dos santos, a bíblia, cordel, até o dia em que meu professor Ribamar meu deu um clássico brasileiro: Dom Casmurro. O fantástico é o que uma história bem contada nos faz, além de nos transportar para a época narrada, pode nos proporcionar a mistura de nossas histórias e com elas aprender pra vida. Até mesmo achar que nossa história é um livro ou que o autor nos conhece, sabe das nossas dores misteriosamente. Vejam só, assim como Bentinho minha mãe queria que eu fosse padre. Aí já deu o gancho! Estava apaixonado por Lavinha minha vizinha, nela meus olhos viam minha Capitu. Eita! Tão interessado e envolvido na história de Machado que descuidei de Lavinha, que foi se enamorar de Emanuel que tinha bicicleta, sabia jogar futebol e estava cagando e andando para os livros de romance. Mas não desanimei. Se os livros eram mais fieis não desisti de amar e desejar as mulheres. Eles os livros ate me ensinaram muitas coisas boas, bonitas para dizer nas horas certas de encantamentos e desfrutes. Poemas, histórias de amor, de aventuras, tratados filosóficos, relatos, biografias de pessoas tão ilustres tudo eu ia apreciando, procurando, curiando, querendo aprender, saber...o que? Pra conhecer uma outra alma conheça primeiro a tua já disse alguém em algum livro já lido. Deve estar lá na estante me esperando para ser relido e fazer eu descobrir que nunca conhecemos profundamente a nossa alma, muito menos as das mulheres sejam elas Capitu, Julieta, Maria Homem, Gabriela, Clarice, Guiomar, Luisa e tantas outras. Ao revisitarmos as nossas entranhas nos surpreendemos, assim como um livro quando é relido e observamos nuances, detalhes, frases preciosas que na primeira leitura não vimos. Até porque não estávamos preparados. É...Tem disso. Alguns livros devem ser lidos na maturidade certa e isso é inexplicável, pois cada um tem o seu momento certo. Um livro pode trucidar uma alma assim como transformá-la completamente. A Mãe, de Gorki, para mim foi um livro que me deu esperança, crença em um ideal e acho que o li no momento certo. Os nomes russos eram um horror para minha compreensão, mas a coragem, a luta revolucionária, o amor da mãe para entender aquele espírito rebelde, a amizade lapidaram minha alma juvenil... Já o livro Crime e Castigo comecei a ler num momento inoportuno. Não estava preparado. Tinha pesadelos terríveis, acordava suado, assustado e tive que parar de ler. Somente tempos depois foi que consegui ler sem tanto sofrimento. Mas se os livros podem provocar sofimento também trazem as delicias o contato com os prazeres mundanos. A sensualidade e erotísmo com que Jorge Amado descrevia as histórias de amores no meio dos reboliços das brigas dos coronéis ou mesmo a singela passagem em que Dora se entregou a Pedro Bala me comoviam e me deixavam excitado. Muito hormônio, rapaizote, qualquer insinuação era motivo para os pensamentos fantasiosos. Imaginação não me faltava e os livros vieram pra ampliar as possibilidades criativas.
Mostrei para o meu afilhado dois livros que tenho muito apreço. Um eu não consigo ler uma palavra. Moby Dick romance do autor americano Herman Melville edição em alemão de 1954. O livro é lindo, tem uma capa de madeira as ilustrações feitas a bico de pena. A abertura era inteligível mesmo em alemão, era forte, talvez por que já conhecesse da versão em portugues: " So nennt mich denn Ismael. Chamai-me Ismael. Se não conheço a língua posso apreciar a forma, o feitio caprichoso, a beleza dos desenhos. Nem tudo a gente precisa entender para apreciar. O outro é um livro de poemas de Gonçalves Dias que em 2010 fará cem anos. Cinqüenta anos mais velho do que eu. Os poemas são lindos, o livro é pequeno com uma capa vermelha surrada, folhas amarelas que pedem cuidado, delicadeza no manuseio. E nele mais uma lembrança de quando menino tive que decorar "Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá". Um livro de cem anos.
Quando nos meus cem anos eu chegar, caso eu chegue lá, eu o darei para o meu neto e talvez ele nem entenda o que é um livro ou porque eu guardei um “objeto” tão estranho, assim como o disco de vinil é para alguns jovens de hoje. Mas eu serei um velho assim como o livro e espero ainda estar cheio de poemas. Espero que meu neto que ainda virá, não precise entender tudo, o todo para amar um presente que veio do passado e que por muito tempo criou futuros. E ele lerá para mim: "Houve um tempo em que eu pedia uma mulher ao meu Deos. Uma mulher que eu amasse. Um dos belos anjos seus", Estão lá os livros a minha espera.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
16:16
2
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
terça-feira, 7 de julho de 2009
Morreu Michael Jackson em Los Angeles e Maiquel Jekson de Quixeramobim
Morte é trem misterioso! Diria meu amigo mineiro. Já Jesualdo, cearense, já diria: pense num bicho esquisito! Francelina, filha de Franciné e Francisca, que tem por irmã Chiquinha assim chamada pra não ser confundida com a mãe, e que é uma das carpideiras da minha terra, já diria: todo bicho vivo é chegado a morrer, morte é descanso!
Se o cabra vivia no bem bom descansava da boa vida e se a vida era uma bosta, descansava da vida ruim que levava. Se era perverso descansava das ruindades feitas e se era uma pessoa boa foi descansar ao lado da virgem Maria.“A pessoa morre como vive. Se enterra como pode, até porque um enterro descente tá pela hora da morte”.Essa era mais uma das teses dela.
Mas esse giro entorno da morte me veio com o falecimento de Michael Jackson. Veja bem, falecimento. Porque gente famosa não morre, falece. O enterro é sepultamento ou traslado do corpo feito num carro fúnebre ou num féretro. E dependendo das posses, as carpideiras como Francelina, que iam chorar por devoção religiosa ou uns trocadinhos bestas, são contratadas a preço de ouro e em papel juramentado por um excelente advogado. No velório, em vez de ser servido um aluá, um refrigerante, uma sopinha feita pela vizinha que se chega para ajudar a viúva ou viúvo, o que é servido é cicuta. Não se conta piadas, mas todos os podres do coitado falecido. O enterro é um evento espetacular.
Só sei que a sabedoria de Francelina me veio a memória com tantas horas de exposição da morte. As pessoas morrem como vivem e são enterradas como podem. O enterro foi um último show, féretro banhado a ouro, evento muito caro.
O quanto podemos querer de eternidade ou acreditar em infinitudes, seja do nosso legado ou da nossa vida comesinha? Sei não! Perguntas bestas sempre nos assombram nessas horas ou eventos. Trem misterioso. Na lápide do Rei do Pop “Rest In Peace”. Michael Jackson descansou. Porém, a morte continuou um trem misterioso ou um bicho esquisito. Afinal todos nós somos bichos morredores e até o virtual se deleta...
E Maiquel Jekson?
Morreu não. Foi só um passamento ligeiro, bucho vazio...tá tinindo lá em Quixeramobim.Vivinho da silva!
Se o cabra vivia no bem bom descansava da boa vida e se a vida era uma bosta, descansava da vida ruim que levava. Se era perverso descansava das ruindades feitas e se era uma pessoa boa foi descansar ao lado da virgem Maria.“A pessoa morre como vive. Se enterra como pode, até porque um enterro descente tá pela hora da morte”.Essa era mais uma das teses dela.
Mas esse giro entorno da morte me veio com o falecimento de Michael Jackson. Veja bem, falecimento. Porque gente famosa não morre, falece. O enterro é sepultamento ou traslado do corpo feito num carro fúnebre ou num féretro. E dependendo das posses, as carpideiras como Francelina, que iam chorar por devoção religiosa ou uns trocadinhos bestas, são contratadas a preço de ouro e em papel juramentado por um excelente advogado. No velório, em vez de ser servido um aluá, um refrigerante, uma sopinha feita pela vizinha que se chega para ajudar a viúva ou viúvo, o que é servido é cicuta. Não se conta piadas, mas todos os podres do coitado falecido. O enterro é um evento espetacular.
Só sei que a sabedoria de Francelina me veio a memória com tantas horas de exposição da morte. As pessoas morrem como vivem e são enterradas como podem. O enterro foi um último show, féretro banhado a ouro, evento muito caro.
O quanto podemos querer de eternidade ou acreditar em infinitudes, seja do nosso legado ou da nossa vida comesinha? Sei não! Perguntas bestas sempre nos assombram nessas horas ou eventos. Trem misterioso. Na lápide do Rei do Pop “Rest In Peace”. Michael Jackson descansou. Porém, a morte continuou um trem misterioso ou um bicho esquisito. Afinal todos nós somos bichos morredores e até o virtual se deleta...
E Maiquel Jekson?
Morreu não. Foi só um passamento ligeiro, bucho vazio...tá tinindo lá em Quixeramobim.Vivinho da silva!
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
15:53
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
domingo, 14 de junho de 2009
Garrafas com Mensagens lançadas no rio Tejo
Garrafas com Mensagens lançadas no rio Tejo
“O tempo que é intolerante com os audazes e com os inocentes e que em uma semana esquece um corpo belo, venera a linguagem e perdoa aqueles que a fazem viver.” W.H. Auden, “em memória de W.B. Yeats
Começo com uma citação, que me faz ter presunção que não escreverei algaravias, por tentar colocar no texto sentimentos vividos numa viagem feita em busca do passado ancestral na terra de Pessoa e de Cervantes. Foi entre Lisboa e Madri, que o desejo de reter a memória em palavras se constituiu como modo de suplantar o medo de enfrentar o tempo, esse intolerante que é capaz de corroer feitos heróicos marcado no ferro ou nas paredes dos castelos. Quanto mais as simples lembranças de um vivente, que na companhia familiar, buscava apenas encontrar as raízes e o sentido do que era.
Alerto aos incautos futuros leitores, diante mão sei que não escreverei com o primor dos mestres já citados. Mas não tenho esse arroubo, pois o que me leva a escrever é apenas dois intuítos: um já revelado acima, e o outro o de compartilhar. Portanto, nos resta cumprir os desígnios da escrita e da linguagem que é escavar as profundezas da alma, das experiências vividas e nos deparar com a condição humana, numa troca entre o que escreve e o que ler. Contar um pouco dos sentimentos que me acometeram, talvez...
“Por isso escrevo em meio/Do que não está ao pé,/Livre do meu enleio,/Sério do que não é/Sentir? Sinta quem lê!”
Estávamos em quatro, dois homens e duas mulheres. Eu já na minha meia idade voltava ao velho continente, porém às terras nunca antes vista, mas tão conhecida nossa pelos costumes, histórias, língua e cultura. Portugal e Espanha. Meu sogro buscava nas terras portuguesas e espanholas restos do que fora seus antepassados. Ele um septuagenário com o agravante de estar com Alzheimer. Minha mulher e a esposa dele empenhadas em realizar talvez um último desejo dele, conhecer as terras dos seus ancestrais, antes que a enfermidade avassaladora apagasse de vez a memória do que era, do que fora. Desde o começo da viagem me perguntava o que buscávamos o que aprenderíamos em tão distinta situação. Sabia que não seria uma viagem fácil, não só pelas condições que se apresentavam como pelas idiossincrasias tão diferentes. Há um ditado na minha terra que diz que para conhecer o outro tem que comer um quilo de sal com ele. A convivência rotineira ou a situação peculiar de uma viagem a terras estranhas ou estrangeiras é capaz de revelar um pouco mais de nossas sombras e luzes.
A primeira coisa que se revelou, foi que estávamos buscando compreender o que o tempo/memória havia feito conosco. Era perceptível ou muitas vezes sutil a presença do “tempo intolerável” como companheiro de viagem. Intolerável com os monumentos, com a história, com os amigos que encontramos, com nós mesmos.
As experiências vividas e as marcas culturais do que acreditávamos que fossem nossas matrizes, enquanto indivíduos ou povo, se apresentavam como um labirinto a ser percorrido. As ruas de Lisboa eram um espelho desse labirinto. A convivência cotidiana em terras estrangeiras também nos traria isso no aspecto mais singular e pessoal. Mesmo para a filha, a convivência constante de mais de vinte dias com os pais há muito não era experienciada. Para nós dois forçosamente haveria o espelho do que seria uma relação longa e o que significava envelhecer. Se nós filhos do novo mundo voltávamos para o velho mundo em busca de conhecer o que nos formava, era nos mares das emoções da relação familiar que jogávamos nossas caravelas, pois "navegar é preciso mais viver não é preciso". Viveríamos a busca e a perda da memória e suas implicações. A dificuldade de como lidar com uma doença degenerativa sem infantilizações do outro, como respeitar a alteridade, como aceitar sem fatalidade as condições adversas que a vida nos traz e como re-aprender ou aprender novos modos de lidar com as questões mais prosaicas e práticas cotidianas.
Tínhamos traçado uma rota que não pode se cumprir na sua totalidade. Conhecemos em Portugal Porto, Fátima, Lisboa, e na Espanha, Madri. Antes havíamos passado por Paris. Havia eleições para o parlamento europeu e a TV ou os cartazes nas ruas falavam de crise e sub-repticiamente destilavam um discurso xenófobo. O velho mundo estava intolerável com todos aqueles por eles chamados de estrangeiros. As muralhas foram re-erguidas ou talvez nunca tenham sido demolidas. A palavra de ordem era a mesma de quinhentos anos atrás, fora os “mouriscos, os marranos” ou todos aqueles que não são considerados europeus, cristãos, brancos. A Europa virara as costas para aqueles que antes foram de suas colônias. Para muitos estes não merecem viver as benesses da comunidade européia. Riqueza usurpada e produzida com o trabalho das antigas colônias.
A história só se repete como farsa, dizia o velho judeu europeu Karl Marx. Vivemos um tempo farsesco, mas não menos cheio de intolerâncias que tempos idos. No entanto, alguns eventos da história, como farsa ou não, assim como as ondas do mar, repetidas vezes voltam a lamber novamente as praias da nova sociedade. Do mesmo modo as velhas lembranças, que nos acometem e vêm na sua repetição nos ensinar, ou transmitir um conselho qualquer. Mas vivemos desmemoriados, fast, fugazes onde nossas experiências, aprendizados, são rapidamente descartadas para não ocupar demais a memória RAM. Tudo se torna uma nota, uma breve notícia que no jornal de amanhã nem será lembrada ou comentada. Ficamos perplexos diante de todas as precariedades da sociedade contemporânea. Somos estrangeiros em todas as pátrias. Com o sentimento de que “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada...A parte isso, tenho ( acredito que devemos ter) todos os sonhos do mundo”.
Já não há mais os apelos solidários, fraternos de união dos povos. Muros caídos, muros erguidos assim ocorre em vários rincões do mundo, muda apenas o discurso de intolerância. E esse era o contexto social e político onde ao mesmo tempo se desenvolviam as nossas descobertas e dramas familiares.
Visitávamos castelos que foram conquistados dos Árabes, igrejas que antes foram mesquitas, sinagogas, as histórias que tínhamos aprendido nos livros agora adquiriam outra cor ou mesmo concretude. Diante das datas, marcas, marcos, línguas e costumes que agiam com indutores das lembranças das minhas histórias, pude assim constatar a força do poeta: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque ele não é o rio que corre pela minha aldeia.” Andávamos pelas ruas com casarões, prédios com arquiteturas tão conhecida. Palavras tão comuns aos nossos ouvidos, nomes, sobrenomes, lugares que tinham o mesmo nome nos dois lados dos continentes. Augusta, ribeiras, Santos, Belém, Madalena ...Os sítios assim nomeados eram um modo dos saudosos conquistadores reterem cá nas Américas a memória, a lembrança da terra ausente, distante. “Ó macio Tejo ancestral e mudo,Pequena verdade onde o céu se reflete! Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.” O que nos irmanava o que nos afastava? Qual era a nossa memória, história comum e se essa história era possível de criar laços ou criar muros, eram questões que me inquietavam. De certa forma eu era mais que um turista acidental ou me propunha a ser.
A ida para Portugal e Espanha criou grande expectativa no meu sogro. Em muitas oportunidades ele se apresentava como descendente de espanhóis e portugueses, sempre de maneira que isso lhe desse algum status por ser um pouco europeu. O pai descendia de portugueses e tinha uma presença fraca na sua formação, quando não, havia um trato pouco amoroso das lembranças desse, que se expressava nas palavras pejorativas dirigidas aos portugueses em geral. Marcas de uma relação conflituosa e rígida. A lembrança forte era do avô materno, espanhol. Este ocupava a figura central de suas memórias de menino. Por ele, o avô, é que havia acalentado a viagem a península e combinado com sua filha. A viagem há muito planejada se tornou urgente quando algumas enfermidades o acometeram. No entanto, nós não tínhamos noção de quanto o Alzheimer havia comprometido sua memória imediata. O que antes para ele seria um encanto, conhecer Portugal e Espanha, no instante que em se concretizou, se tornou uma relação dúbia as vezes de afeto e agradecimento a filha ou jocosidade e indiferença. As memórias recentes se esvaiam. O instante imediato não era apreendido, era esquecido, o último almoço, visita da manhã, a degustação dos pratos típicos, a beleza de Goya, a vista do rio Mondego, o pátio da universidade de Coimbra, o lamento do fado, a espanha altiva, o que era a monumental história de sua história não podia ficar retido. As ruas, as pessoas se misturavam com as lembranças do passado e a imagem que vinha habitar o presente ibérico eram as lembranças do passado quando jovem no Brasil. Até mesmo a imagem passada do que ele acreditava que fosse o “seu Portugal e Espanha” não se coadunavam com o presente vivido. Nada se assemelhava aquelas aldeias de sua memória de garoto. Dissonante, discordante, fugidio o presente escapava-lhe, a terra dos seus ancestrais se tornara desinteressante, fastidiosa, fatigante. A sua personalidade de rigidez e teimosia que se acentuava com a enfermidade dificultavam-no a ter a noção exata do problema que tinha, assim como criar novos hábitos que o facilitasse a navegar por esses mares sombrios do esquecimento. Não havia sabedoria naquele esquecimento. A sabedoria que o poeta descreveu como:“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,/ E ao beber nem recorda/ Que já bebeu na vida,/Para quem tudo é novo/ E imarcescível sempre.” Havia angustia. Principalmente daqueles que o acompanhavam. O medo de o verem chegar ao quarto da memória e encontrar apenas ..."uma cousa escura com paredes vagamente brancas".
Eu que sempre me sentira um verdadeiro mestiço brasileiro e que em outros tempos jamais me imaginara a caminhar pelas ruas de Lisboa e Madri, percorria cada ruela, sítio histórico entre a contemplação e a meditação. Meditava sobre o destino que me levava a fazer aqueles caminhos, acompanhado de um homem claudicante que em busca das memórias se via desprovido delas. Nesse paradoxo que a vida apresentava importava não somente o efeito biológico do Alzheimer, mas os aspectos simbólicos e sociais que trazia para mim. No aspecto singular e pessoal pensava que poderia no futuro estar sujeito ao mesmo processo que passava meu sogro. O futuro era insondável e assustador. Eu que prezava tanto a memória e a contação de histórias poderia ser vítima de uma doença degenerativa, que iria solapar todas as minhas lembranças, experiências, recordações de amores vividos, o riso novo e o passado, o novo contemplado, degustado e principalmente a minha capacidade de aprender novas coisas. Todo aprendizado requer uma disposição e vontade para querer aprender e ao mesmo tempo um dose de repetição que não teria mais como fazer e reter. Esses pensamentos se apossavam de mim nos instantes mais impresumíveis, diante do quadro as Três Graças, de Rubens o mestre flamengo, e ao admirá-lo o temor de não poder usufruir do Amor, Alegria e da Folia. Ao observar as marcas deixadas nas escadas de um castelo, nas ruínas de uma igreja derrubada por um terremoto, eu receava por vir esquecer os castelos que ergui e os tremores e temores que senti e enfrentei. Reter e perder, faces da mesma moeda do fardo humano. Tudo é passageiro, isto também passará, mas temos a crença ou ilusão de que com a nossa memória eternizamos a tudo e a todos com os quais estabelecemos alguma relação. Que o nosso presente está sobre bases sólidas de um passado menos ou mais virtuoso. O futuro é insondável para todos, até porque a velhice e a morte sempre são as únicas certezas para aqueles que escaparam da morte prematura. Eu era um desses, (não morri quando criança, apesar de ter tantas vezes morrido de tristezas, de alegrias, de amores), a caminhar por ruínas ou por avenidas de uma Europa opulenta. Sabedor e sendo relembrado que senão a velhice, alguma enfermidade, ou as mortes que são tantas, haverão de me desprover de algumas memórias, me privarem das minhas doces lembranças. “Trago dentro do meu coração/Como num cofre que não pode fechar de cheio/Todos os lugares onde estive/Todos os portos a que cheguei...”
Meu sogro no seu caminhar titubeante e constantemente cansado, nas repetidas perguntas e gestos que fazia, na sua preocupação com as horas, na sua busca das raízes e ao mesmo tempo estranhamento delas, a raiva contida, talvez por “não ter trazido o passado roubado na algibeira”, era uma oportunidade que se apresentava de pensar e repensar a mim mesmo. O que sou, ou imagino que seja e do que não quero ser. “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?” Até por saber que há muitos eventos inexoráveis futuros, porém, por acreditar que somos também o que construímos é que fiquei a matutar, a tentar da mistura da experiência vivida, dos poemas e livros lidos na viagem produzir algum sentido.
Sou daqueles que acredita que cada pessoa é um livro de história em potencial, um romance a ser lido no mínimo por aqueles que lhe acercam de imediato. Mas estamos sem tempo. E o tempo esse intolerável não nos poupara. Inocentes ou audazes estamos fadados ao esquecimento? A doença degenerativa da memória aflige não somente os indivíduos ela já se tornou um mal social.
Por isso seguindo os conselhos Alberto Manguel, W.H Mauden e Fernando Pessoa percorri o caminho da linguagem e naveguei por entre verbos, adjetivos, substantivos, poesias na busca de sentido para uma experiência tão intensamente vivida numa viagem as terras de Cervantes e Camões. Não cheguei a nenhuma conclusão, até porque a “única conclusão é morrer”. E eu sigo vivendo e como os marinheiros (náufragos) lançando ao mar garrafas com mensagens, e se por caso elas não encontrarem os endereçados que voltem para mim como memórias.
*todos os itálicos são trechos dos poemas de Fernando Pessoa no seu livro O Eu profundo e os outros Eus. http://www.pessoa.art.br/
“A Cidade das Palavras – As histórias que contamos para saber quem somos” de Alberto Manguel foi o livro que me instigou a escrever esse relato.(http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081123/not_imp282062,0.php)
“O tempo que é intolerante com os audazes e com os inocentes e que em uma semana esquece um corpo belo, venera a linguagem e perdoa aqueles que a fazem viver.” W.H. Auden, “em memória de W.B. Yeats
Começo com uma citação, que me faz ter presunção que não escreverei algaravias, por tentar colocar no texto sentimentos vividos numa viagem feita em busca do passado ancestral na terra de Pessoa e de Cervantes. Foi entre Lisboa e Madri, que o desejo de reter a memória em palavras se constituiu como modo de suplantar o medo de enfrentar o tempo, esse intolerante que é capaz de corroer feitos heróicos marcado no ferro ou nas paredes dos castelos. Quanto mais as simples lembranças de um vivente, que na companhia familiar, buscava apenas encontrar as raízes e o sentido do que era.
Alerto aos incautos futuros leitores, diante mão sei que não escreverei com o primor dos mestres já citados. Mas não tenho esse arroubo, pois o que me leva a escrever é apenas dois intuítos: um já revelado acima, e o outro o de compartilhar. Portanto, nos resta cumprir os desígnios da escrita e da linguagem que é escavar as profundezas da alma, das experiências vividas e nos deparar com a condição humana, numa troca entre o que escreve e o que ler. Contar um pouco dos sentimentos que me acometeram, talvez...
“Por isso escrevo em meio/Do que não está ao pé,/Livre do meu enleio,/Sério do que não é/Sentir? Sinta quem lê!”
Estávamos em quatro, dois homens e duas mulheres. Eu já na minha meia idade voltava ao velho continente, porém às terras nunca antes vista, mas tão conhecida nossa pelos costumes, histórias, língua e cultura. Portugal e Espanha. Meu sogro buscava nas terras portuguesas e espanholas restos do que fora seus antepassados. Ele um septuagenário com o agravante de estar com Alzheimer. Minha mulher e a esposa dele empenhadas em realizar talvez um último desejo dele, conhecer as terras dos seus ancestrais, antes que a enfermidade avassaladora apagasse de vez a memória do que era, do que fora. Desde o começo da viagem me perguntava o que buscávamos o que aprenderíamos em tão distinta situação. Sabia que não seria uma viagem fácil, não só pelas condições que se apresentavam como pelas idiossincrasias tão diferentes. Há um ditado na minha terra que diz que para conhecer o outro tem que comer um quilo de sal com ele. A convivência rotineira ou a situação peculiar de uma viagem a terras estranhas ou estrangeiras é capaz de revelar um pouco mais de nossas sombras e luzes.
A primeira coisa que se revelou, foi que estávamos buscando compreender o que o tempo/memória havia feito conosco. Era perceptível ou muitas vezes sutil a presença do “tempo intolerável” como companheiro de viagem. Intolerável com os monumentos, com a história, com os amigos que encontramos, com nós mesmos.
As experiências vividas e as marcas culturais do que acreditávamos que fossem nossas matrizes, enquanto indivíduos ou povo, se apresentavam como um labirinto a ser percorrido. As ruas de Lisboa eram um espelho desse labirinto. A convivência cotidiana em terras estrangeiras também nos traria isso no aspecto mais singular e pessoal. Mesmo para a filha, a convivência constante de mais de vinte dias com os pais há muito não era experienciada. Para nós dois forçosamente haveria o espelho do que seria uma relação longa e o que significava envelhecer. Se nós filhos do novo mundo voltávamos para o velho mundo em busca de conhecer o que nos formava, era nos mares das emoções da relação familiar que jogávamos nossas caravelas, pois "navegar é preciso mais viver não é preciso". Viveríamos a busca e a perda da memória e suas implicações. A dificuldade de como lidar com uma doença degenerativa sem infantilizações do outro, como respeitar a alteridade, como aceitar sem fatalidade as condições adversas que a vida nos traz e como re-aprender ou aprender novos modos de lidar com as questões mais prosaicas e práticas cotidianas.
Tínhamos traçado uma rota que não pode se cumprir na sua totalidade. Conhecemos em Portugal Porto, Fátima, Lisboa, e na Espanha, Madri. Antes havíamos passado por Paris. Havia eleições para o parlamento europeu e a TV ou os cartazes nas ruas falavam de crise e sub-repticiamente destilavam um discurso xenófobo. O velho mundo estava intolerável com todos aqueles por eles chamados de estrangeiros. As muralhas foram re-erguidas ou talvez nunca tenham sido demolidas. A palavra de ordem era a mesma de quinhentos anos atrás, fora os “mouriscos, os marranos” ou todos aqueles que não são considerados europeus, cristãos, brancos. A Europa virara as costas para aqueles que antes foram de suas colônias. Para muitos estes não merecem viver as benesses da comunidade européia. Riqueza usurpada e produzida com o trabalho das antigas colônias.
A história só se repete como farsa, dizia o velho judeu europeu Karl Marx. Vivemos um tempo farsesco, mas não menos cheio de intolerâncias que tempos idos. No entanto, alguns eventos da história, como farsa ou não, assim como as ondas do mar, repetidas vezes voltam a lamber novamente as praias da nova sociedade. Do mesmo modo as velhas lembranças, que nos acometem e vêm na sua repetição nos ensinar, ou transmitir um conselho qualquer. Mas vivemos desmemoriados, fast, fugazes onde nossas experiências, aprendizados, são rapidamente descartadas para não ocupar demais a memória RAM. Tudo se torna uma nota, uma breve notícia que no jornal de amanhã nem será lembrada ou comentada. Ficamos perplexos diante de todas as precariedades da sociedade contemporânea. Somos estrangeiros em todas as pátrias. Com o sentimento de que “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada...A parte isso, tenho ( acredito que devemos ter) todos os sonhos do mundo”.
Já não há mais os apelos solidários, fraternos de união dos povos. Muros caídos, muros erguidos assim ocorre em vários rincões do mundo, muda apenas o discurso de intolerância. E esse era o contexto social e político onde ao mesmo tempo se desenvolviam as nossas descobertas e dramas familiares.
Visitávamos castelos que foram conquistados dos Árabes, igrejas que antes foram mesquitas, sinagogas, as histórias que tínhamos aprendido nos livros agora adquiriam outra cor ou mesmo concretude. Diante das datas, marcas, marcos, línguas e costumes que agiam com indutores das lembranças das minhas histórias, pude assim constatar a força do poeta: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque ele não é o rio que corre pela minha aldeia.” Andávamos pelas ruas com casarões, prédios com arquiteturas tão conhecida. Palavras tão comuns aos nossos ouvidos, nomes, sobrenomes, lugares que tinham o mesmo nome nos dois lados dos continentes. Augusta, ribeiras, Santos, Belém, Madalena ...Os sítios assim nomeados eram um modo dos saudosos conquistadores reterem cá nas Américas a memória, a lembrança da terra ausente, distante. “Ó macio Tejo ancestral e mudo,Pequena verdade onde o céu se reflete! Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.” O que nos irmanava o que nos afastava? Qual era a nossa memória, história comum e se essa história era possível de criar laços ou criar muros, eram questões que me inquietavam. De certa forma eu era mais que um turista acidental ou me propunha a ser.
A ida para Portugal e Espanha criou grande expectativa no meu sogro. Em muitas oportunidades ele se apresentava como descendente de espanhóis e portugueses, sempre de maneira que isso lhe desse algum status por ser um pouco europeu. O pai descendia de portugueses e tinha uma presença fraca na sua formação, quando não, havia um trato pouco amoroso das lembranças desse, que se expressava nas palavras pejorativas dirigidas aos portugueses em geral. Marcas de uma relação conflituosa e rígida. A lembrança forte era do avô materno, espanhol. Este ocupava a figura central de suas memórias de menino. Por ele, o avô, é que havia acalentado a viagem a península e combinado com sua filha. A viagem há muito planejada se tornou urgente quando algumas enfermidades o acometeram. No entanto, nós não tínhamos noção de quanto o Alzheimer havia comprometido sua memória imediata. O que antes para ele seria um encanto, conhecer Portugal e Espanha, no instante que em se concretizou, se tornou uma relação dúbia as vezes de afeto e agradecimento a filha ou jocosidade e indiferença. As memórias recentes se esvaiam. O instante imediato não era apreendido, era esquecido, o último almoço, visita da manhã, a degustação dos pratos típicos, a beleza de Goya, a vista do rio Mondego, o pátio da universidade de Coimbra, o lamento do fado, a espanha altiva, o que era a monumental história de sua história não podia ficar retido. As ruas, as pessoas se misturavam com as lembranças do passado e a imagem que vinha habitar o presente ibérico eram as lembranças do passado quando jovem no Brasil. Até mesmo a imagem passada do que ele acreditava que fosse o “seu Portugal e Espanha” não se coadunavam com o presente vivido. Nada se assemelhava aquelas aldeias de sua memória de garoto. Dissonante, discordante, fugidio o presente escapava-lhe, a terra dos seus ancestrais se tornara desinteressante, fastidiosa, fatigante. A sua personalidade de rigidez e teimosia que se acentuava com a enfermidade dificultavam-no a ter a noção exata do problema que tinha, assim como criar novos hábitos que o facilitasse a navegar por esses mares sombrios do esquecimento. Não havia sabedoria naquele esquecimento. A sabedoria que o poeta descreveu como:“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,/ E ao beber nem recorda/ Que já bebeu na vida,/Para quem tudo é novo/ E imarcescível sempre.” Havia angustia. Principalmente daqueles que o acompanhavam. O medo de o verem chegar ao quarto da memória e encontrar apenas ..."uma cousa escura com paredes vagamente brancas".
Eu que sempre me sentira um verdadeiro mestiço brasileiro e que em outros tempos jamais me imaginara a caminhar pelas ruas de Lisboa e Madri, percorria cada ruela, sítio histórico entre a contemplação e a meditação. Meditava sobre o destino que me levava a fazer aqueles caminhos, acompanhado de um homem claudicante que em busca das memórias se via desprovido delas. Nesse paradoxo que a vida apresentava importava não somente o efeito biológico do Alzheimer, mas os aspectos simbólicos e sociais que trazia para mim. No aspecto singular e pessoal pensava que poderia no futuro estar sujeito ao mesmo processo que passava meu sogro. O futuro era insondável e assustador. Eu que prezava tanto a memória e a contação de histórias poderia ser vítima de uma doença degenerativa, que iria solapar todas as minhas lembranças, experiências, recordações de amores vividos, o riso novo e o passado, o novo contemplado, degustado e principalmente a minha capacidade de aprender novas coisas. Todo aprendizado requer uma disposição e vontade para querer aprender e ao mesmo tempo um dose de repetição que não teria mais como fazer e reter. Esses pensamentos se apossavam de mim nos instantes mais impresumíveis, diante do quadro as Três Graças, de Rubens o mestre flamengo, e ao admirá-lo o temor de não poder usufruir do Amor, Alegria e da Folia. Ao observar as marcas deixadas nas escadas de um castelo, nas ruínas de uma igreja derrubada por um terremoto, eu receava por vir esquecer os castelos que ergui e os tremores e temores que senti e enfrentei. Reter e perder, faces da mesma moeda do fardo humano. Tudo é passageiro, isto também passará, mas temos a crença ou ilusão de que com a nossa memória eternizamos a tudo e a todos com os quais estabelecemos alguma relação. Que o nosso presente está sobre bases sólidas de um passado menos ou mais virtuoso. O futuro é insondável para todos, até porque a velhice e a morte sempre são as únicas certezas para aqueles que escaparam da morte prematura. Eu era um desses, (não morri quando criança, apesar de ter tantas vezes morrido de tristezas, de alegrias, de amores), a caminhar por ruínas ou por avenidas de uma Europa opulenta. Sabedor e sendo relembrado que senão a velhice, alguma enfermidade, ou as mortes que são tantas, haverão de me desprover de algumas memórias, me privarem das minhas doces lembranças. “Trago dentro do meu coração/Como num cofre que não pode fechar de cheio/Todos os lugares onde estive/Todos os portos a que cheguei...”
Meu sogro no seu caminhar titubeante e constantemente cansado, nas repetidas perguntas e gestos que fazia, na sua preocupação com as horas, na sua busca das raízes e ao mesmo tempo estranhamento delas, a raiva contida, talvez por “não ter trazido o passado roubado na algibeira”, era uma oportunidade que se apresentava de pensar e repensar a mim mesmo. O que sou, ou imagino que seja e do que não quero ser. “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?” Até por saber que há muitos eventos inexoráveis futuros, porém, por acreditar que somos também o que construímos é que fiquei a matutar, a tentar da mistura da experiência vivida, dos poemas e livros lidos na viagem produzir algum sentido.
Sou daqueles que acredita que cada pessoa é um livro de história em potencial, um romance a ser lido no mínimo por aqueles que lhe acercam de imediato. Mas estamos sem tempo. E o tempo esse intolerável não nos poupara. Inocentes ou audazes estamos fadados ao esquecimento? A doença degenerativa da memória aflige não somente os indivíduos ela já se tornou um mal social.
Por isso seguindo os conselhos Alberto Manguel, W.H Mauden e Fernando Pessoa percorri o caminho da linguagem e naveguei por entre verbos, adjetivos, substantivos, poesias na busca de sentido para uma experiência tão intensamente vivida numa viagem as terras de Cervantes e Camões. Não cheguei a nenhuma conclusão, até porque a “única conclusão é morrer”. E eu sigo vivendo e como os marinheiros (náufragos) lançando ao mar garrafas com mensagens, e se por caso elas não encontrarem os endereçados que voltem para mim como memórias.
*todos os itálicos são trechos dos poemas de Fernando Pessoa no seu livro O Eu profundo e os outros Eus. http://www.pessoa.art.br/
“A Cidade das Palavras – As histórias que contamos para saber quem somos” de Alberto Manguel foi o livro que me instigou a escrever esse relato.(http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20081123/not_imp282062,0.php)
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
22:08
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
relatos de viagem. Fernando Pessoa
terça-feira, 9 de junho de 2009
Memória
Escrever um livro talvez seja a tentativa mais desesperada de reter a memória. Platão achava que a escrita iria fazer as pessoas perderem a memória. O mesmo preconizou alguns arautos do fim do mundo, que a perda da memória aconteceria devido a informática e a internet. Por preguiça armazenaríamos tudo em discos rigidos, chips, celulares etc. É bem verdade que ando esquecendo algumas coisas. Não sei a quem culpar. Já queimei bastante neurônios quando adolescente, mas acreditava até então, que ainda tinha ou tenho alguns milhões deles onde poderiam ficar registrados eventos tão importantes quanto o primeiro olhar da Laura e do Biel, o por de sol na chapada do Arararipe, aquela trepada no mato numa noite de lua cheia, os motivos das marcas pelo corpo, um velho anel, aquele cheiro, aquele gosto, o poema de... aquele autor.... o ...aquele....Não pensem que esqueci...Neruda, Vinícius, leminsk, Carlos, Manuel, Cora Coralina, Elisa Lucinda, Augusto dos anjos....tantos poemas e poetas que fiizeram minhas memórias ficarem mais leves e encantadas. Talvez a minha idade esteja a me roubar algumas boas lembranças, ou o tempo tão sem tempo para dedicarmos a uma boa prosa, a contação de nossos causos regados por uma boa bebida e comida slowfood. Talvez por essa necessidade de reter a memória que acredito na escrita, nos livros. Acredito que os autores sérios escrevem não por vaidade, mas para dar vasão as suas angustias, inquietações, ou tentativa desesperada de poder deter o que é finito. Tudo bem...uma dose de vaidade não faz mal a ninguém. Que se ganhe uns trocados e uns sinceros elogios não é mal. E ainda mais se aquela pessoa que você tanto deseja se deixar encantar por suas palavras e vir a... sei lá...quem sabe... Como diz os mineiros: Bão também! Tudo vale a pena quando a alma não é pequena já dizia... Ah lembrei: Fernando Pessoa. É isso aí, nesses tempos de tantos exercícios físicos vamos ler e escrever, musculação para o cérebro.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
16:06
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Madri com Amélie Nothomb na la Buena Vida
Madri é uma cidade linda. Eu já estava bastante comovido com algumas copas de vinos quando a lua resolveu me visitar na plaza Cervantes, surgindo por traz de um velho prédio do século dezoito. Alegre mas non trôpego resolvi caminar pelas pequenas calles. Fique encantado com pessoas e as livrarias que sao muito charmosas. Perto do Palacio Real, na Calle Vergara, encontrei La Buena Vida - café del Libro. Nesse espaço delicioso encontrei o livro "Ni de Eva ni de Adán" de Amélie Nothomb, que espero poder traduzir e quem sabe obter a autorização para lançá-lo pela Nhambiquara. A autora é uma bela jovem que nasceu em Kobe no Japâo, mas descende de familia belga e hoje mora em Bruxelas. Ganhou projeção Internacional com seu livro Estupor Temblores. Ela escreve com muito bom humor e de maneira biográfica, trazendo uma peculiar visâo do Japão e ao seu tempo de infancia quando lá viveu. Aí vai o endereço da la Buena Vida, que segundo seu proprietário Jesus, amante da música brasileira, pode enviar seus livro a qualquer canto do Brasil.
http://www.labuenavida-cafedellibro.es/
http://www.labuenavida-cafedellibro.es/
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
08:47
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
livraria em madri
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Contando Histórias - Fazendo História. EDUC. 2007
Contando Histórias marcou um ponto de inflexão importante na discussão de práticas de investigação no programa de Pós-graduação em psicologia Social da PUC-SP. Inovou, primeiro, na busca de uma relação horizontal com o campo, uma relação de diálogo e debate, de engajamento ativo nas questões em foco em vez de observações frias e independente, mesmo quando descrito como participante. Inovou também ao abrir mão de um método específico, selecionado anteriormente a partir de uma discussão metodológica abstrata e de adotar qualquer caminho que parecia útil para melhorar a compreensão e o diálogo; trocando o metodológico pelo metódico. Finalmente inovou ao buscar uma maneira de contar a pesquisa, que respeitaria o campo em que foi inserido e de trazer um pouco de sua riqueza para as páginas frias de uma tese de mestrado. Se hoje discutimos com tranquilidade conceitos teóricos e metodológicos como campo-tema, lugares, saberes e praticas situadas, se hoje buscamos com igual tranquilidade criar maneiras mais adequadas para redigir uma pesquisa cada vez mais rediscritiva, é em grande parte o resultado das discussões que se deram coletivamente em volta do trabalho de João Bosco.
Professor Peter K. Spink
Professor Peter K. Spink
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
15:33
0
comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Marcadores:
Narrativa. Práticas Situadas. Lugares
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Sapucaya
Sapucaya a Grande Árvore e a origem dos bichos.
Contam os antigos que no começo do mundo nada existia.
Depois surgiu o sol Aram, que corria durante o dia e a lua Aamo que dançava durante a noite no firmamento. Vez ou outra Aram o sol esperava Aamo a lua aparecer radiante para vê-la dançar.
Foi nesse tempo que apareceu Sapucaya a Grande Árvore, que surgiu da união das forças de Iby a terra, Ig as águas, Ibytu o vento. Ela era uma árvore frondosa, bela, seus últimos galhos beijavam as nuvens de tão alto, suas folhas cantavam quando a brisa soprava e suas raízes profundas conheciam a intimidade de Iby a terra e dela se alimentava. Somente ela assistia a dança da lua e a corrida do sol.
Certo dia, contemplando a beleza do firmamento ela se sentiu só. Sapucaya então, com infinita sabedoria gerou um monte de frutos. Os frutos em outras árvores se transformaram e se espalharam formando a floresta. Muitos frutos foram gerados por ela e suas irmãs Juvia, Jussara, Anami, Ingá, Babaçu e tantas outras.
Sapucaya a Grande Árvore viu que não havia nada que se alimentasse dos frutos espalhados pela floresta e aí, ela por um encanto, bondosamente transformou seus frutos e deles nasceram os primeiros bichos.
Assim começa o novo livro de João Bosco destinado às crianças.Tem uma narrativa de lenda indígena resgatando algumas palavras do tupi-guarani e brincando com uma cosmogenia ecológica baseada em vários mitos. No segundo semestre teremos lançamento.
Contam os antigos que no começo do mundo nada existia.
Depois surgiu o sol Aram, que corria durante o dia e a lua Aamo que dançava durante a noite no firmamento. Vez ou outra Aram o sol esperava Aamo a lua aparecer radiante para vê-la dançar.
Foi nesse tempo que apareceu Sapucaya a Grande Árvore, que surgiu da união das forças de Iby a terra, Ig as águas, Ibytu o vento. Ela era uma árvore frondosa, bela, seus últimos galhos beijavam as nuvens de tão alto, suas folhas cantavam quando a brisa soprava e suas raízes profundas conheciam a intimidade de Iby a terra e dela se alimentava. Somente ela assistia a dança da lua e a corrida do sol.
Certo dia, contemplando a beleza do firmamento ela se sentiu só. Sapucaya então, com infinita sabedoria gerou um monte de frutos. Os frutos em outras árvores se transformaram e se espalharam formando a floresta. Muitos frutos foram gerados por ela e suas irmãs Juvia, Jussara, Anami, Ingá, Babaçu e tantas outras.
Sapucaya a Grande Árvore viu que não havia nada que se alimentasse dos frutos espalhados pela floresta e aí, ela por um encanto, bondosamente transformou seus frutos e deles nasceram os primeiros bichos.
Assim começa o novo livro de João Bosco destinado às crianças.Tem uma narrativa de lenda indígena resgatando algumas palavras do tupi-guarani e brincando com uma cosmogenia ecológica baseada em vários mitos. No segundo semestre teremos lançamento.
Postado por
NHAMBIQUARA EDITORA
às
12:02
1 comentários
Enviar por e-mailPostar no blog!Compartilhar no XCompartilhar no FacebookCompartilhar com o Pinterest
Assinar:
Postagens (Atom)