segunda-feira, 24 de maio de 2010

Desassossego I

A volta.

“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto." Livro dos Desassossegos - Fernando Pessoa



Porque sempre nessa maldita hora esse incômodo vem tirar meu sono. Nem sei se posso chamar de “incômodo” esse enjôo do caralho, essa azia que me faz arrotar a bílis, essa náusea. Foram tantos os sapos que já engoli na vida que já devia estar acostumado, já devia fazer parte da minha dieta. Sapos dessa cidade louca e não as rãs fritas que apreciava tanto lá na minha terra. Se eu vomitasse a todos e a tudo que tem me feito mal, talvez eu melhorasse. Mas eu não consigo. Quero levantar, sei que o sono não mais virá. Mas também não tenho o que fazer. Estrebucho na cama estreita. Espero que o dia me aquiete.
Escuto no quartinho do lado mais uma vez a porra da vizinha a dar um esculacho no marido que chegou bêbado. Quando escuto essa confusão toda, mais a sirenes que não param de apitar me pergunto o que vim fazer nessa terra. Pensava que ia ficar rico. Me sinto enganado pelo meu próprio irmão. Quando ele enfiou no meu juízo a ilusão besta de que aqui era o paraíso. Um engodo, somos um engodo. Ele leva uma vida de merda e acha que é bem melhor do que os ouros que ficaram lá na casa de mãe. Lugarzinho que também não era lá grande coisa. Mas pelo menos havia espaço para respirar.
Estou com o peito apertado. Não é um infarto, eu não morro assim de repente. Pei puf! Nem isso me acontece. Fico aqui vegetando, definhando morrendo aos poucos.
Não tem marcela, não tem bicarbonato, não tem sonrizal, não tem chazinho de mãe que acalme essa azia. Se tivesse alguma grana no bolso levantava e ia tomar uma gelada. Quem sabe bêbado conseguisse dormir.
A cabeça ferve com pensamentos bestas. Quero voltar. Devo voltar? Terei coragem de voltar com uma mão na frente e outra atrás e assumir a minha derrota. Vim achando que seria um vitorioso. Ajuntaria uma grana e voltaria, teria um moto, um ponto comercial, e nenhum patrão filho de uma puta mandaria mais em mim. Nem eu me comando. Será que eu consigo voltar?
Ao meu lado no beliche, meu irmão ronca e peida indiferente ao meu desassossego. Não sei quem é mais idiota se ele ou eu que ainda acho que há alguma saída para essa minha vida de merda. Essa cidade faz tudo virar água suja que corre para um rio fedido, que se quer vai para o mar.
O clarão das luzes dos faróis dos carros parecem fantasmas que entram pela janela. Fico contando as sombras pra ver se o sono chega. Pareço ter ouvido de tuberculoso. Todos os sons das entranhas do prédio fazem um barulho enorme nas minhas oiças. Passos no corredor, choro de menino, descargas, ranger da porta de entrada que não para. Acho que nesse prédio mora quase a minha cidade inteira. Uns apinhados nos outros.
Os barulhos e os fantasmas da minha cabeça. Busco no passado um alento, mas tenho levado tanta porrada que tenho até medo de pensar em coisas boas. Mesmo as passadas, que não foram muitas. Mas pelo menos tinha a esperança, um fiapo de sonho de que quando viesse para cá o mundo se abriria para mim. Mundão. Sim, mundão, tão grande que me assustei na chegada. Outra paisagem tão diferente do que eu tinha imaginado. Tanta gente tanta confusão na rodoviária. A cidade se abriu para mim, no começo como um sonho, depois um pesadelo. O tempo é como formiga cortadeira. Na virada da noite ela acaba com todas as folhas de esperanças. Amanhecemos um galho desfolhado. O que vim buscar era uma coisinha melhor. Não é que não tivesse coragem pra enfrentar a labuta. Nunca fui frouxo. Trabalho desde menino, vendendo ovos para depois meu pai tomar de cana. Tinha que esconder o dinheiro. Agora sou eu que encho a cara. Estou cansado dessa cidade. Quero ir embora. Mas o asfalto parece prender as minhas pernas, roubar minhas energias, minha coragem. A cidade tem um visgo que prende a gente. Lembro quando na roça passava o visgo nos galhos pra pegar os canarinhos. Eles vinham, pousavam e depois ficavam tentando voar com os pezinhos presos no visgo. Passavam a cantar e avistar o céu azul de dentro de uma gaiola. Já não avisto um céu azul faz muito tempo. É como se a cinza da cidade tivesse pregado nos meus olhos. O médico da firma falou que não tenho nada nos olhos. É só embaçado. Lembro como uma névoa apareceu de repente nos olhos de minha avó quando mataram meu tio. É isso. Sinto uma tristeza e uma saudade que esfumaça e embaça minha visão.
Ah noite comprida!
Alguém ligou um rádio bem alto. Isso é hora? Assim com os olhos fechados, com a música tocando lá longe, lembro um passeio numa roda gigante.
Duas coisas cegam um homem: amor e desgosto.
Com o amor só avistamos a pessoa amada. Não vemos nenhum defeito e tudo é bom. Quanto tempo dura um amor? São nessas noites que sempre vem a lembrança dela. Já foi o tempo.
Não posso me iludir achando que ela ficou me esperando. Essa cegueira eu já não tenho. Fui covarde quando o pobre pai dela me perguntou se eu queria casar e se iria voltar. Não respondi que sim nem que não. Tava de mala pronta. Vim embora sem uma despedida. Por sorte ela não ficou grávida, esperando outro desvalido como eu. Dei muito desgosto.
Quero voltar, mas não tenho pra quem voltar.
Nem para a minha mãe, aquela que me pariu e quando morreu não teve um caixão descente, porque não tive como mandar dinheiro para comprar. Chorei como um borrego desmamado, quando recebi o telegrama de minha irmã mais nova pedindo um ajuda para o enterro. O estrupício do meu irmão, ainda teve a coragem de dizer que pra ser enterrado não tinha que ter luxo, a terra ia comer do mesmo jeito. Não ia enterrar o dinheiro dele junto com mãe. Foi nesse dia que achei que não tínhamos vindo do mesmo ventre e foi nesse dia que começou essa minha azia, e a mania de acordar sempre na mesma hora veio logo depois. Esse desassossego.
Desgostos todo mundo tem. Mas tem uns que são premiados na loteria do desgosto. Com desgosto ficamos cegos para o passado e para o futuro. É como nos filmes de vampiro que vi no cinema, quando olhamos no espelho não vemos nossa imagem. Pois somos nada, só desgosto.
Na escuridão da noite nesse quarto avisto tudo melhor do que de dia.
Estou cansando mais o sono não vem. Só assombros. Sinto os calos das mãos. O cabra anda, anda achando até que vai chegar ao fim da cidade para chegar no emprego, trabalha dez horas, pega pesado e depois... Pra nada. É vida não. É um assombro. O sujeito não ter um lugar a onde cair morto.
Não sou ingrato. O pecado da ingratidão eu não tenho na minha conta. Posso ter muitos outros. Esse quartinho que estou é melhor que está na rua ou debaixo de uma dessas pontes. Tenho um teto com uma mancha de mofo sobre a minha cabeça. Um dia ainda vou passar uma mão de cal. Foi meu primo que arrumou para nós. “Podia ser pior”, disse ele para nós quando entrou no ônibus de volta pra sua cidade, “o quartinho é bom e baratinho”. Se despediu e foi levando o rádio que eu tinha comprado com muito sacrifício como pagamento da sua bondade. Levou minhas músicas, meu rádio, mas não sou mal agradecido. Me deixou num canto e me levou os outros cantos mais formosos. Nesse prédio parece que Deus juntou tudo quando era de gente fodida e colocou para morar juntos. E disse: Quem sobreviver vai para o inferno que é um lugarzinho melhor.
Queria voltar ainda com alguma força para trabalhar ou mesmo pra morrer lá. Penso que pelo menos se voltar, serei enterrado na terra que nasci, seca, dura, mas estarei perto dos meus conhecidos.
“Pensamento torto esse seu”, me disse certa vez meu irmão. Talvez ele esteja certo, morto, os únicos conhecido que terei serão os vermes. E tanto faz os vermes dessa cidade como os de lá. Os de lá são mais “michoruquinhas”, tem menos gente pra comer.
Essa peste de dor de estômago, essa queimação, azia, esses fantasmas, esse barulho, esse peito apertado, essa agonia.
Se tudo isso não estivesse me incomodando, e fossem outros os tempos, até riria das minhas próprias besteiras e toda essa prosopopéia. Já fui alegre, gargalhador, cheio de pilhérias e anedotas. Depois de tomar uma meiota contava um monte de anedotas. Lá na firma um cara chegou a dizer que eu levava jeito pra palhaço. Não sei se era um elogio ou uma mangofa.
Perdi o costume do riso.
Estou seco como algumas cacimbas na época do verão. Você grita dentro delas e escuta somente o eco seco, diferente do eco úmido da época do inverno.
Quem dera poder voltar na época do inverno. Quem sabe no próximo.
Um copo de água talvez alivie essa minha azia, minha secura.
Levanto no escuro e vou até uma quartinha, que está sobre um banco no canto do quarto. Uma quartinha de barro, presente da minha mãe quando vim embora. Tateando procuro o caneco que geralmente fica na boca dela. Seco viro a quartinha no copo. Ela também está seca, vazia.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Meus Desassossegos

Outro dia li "O livro dos desassossegos" de Fernando Pessoa. Já vinha querendo escrever contos com essa palavra "desassossego". Gosto dela assim como gosto de sossego. E para mim, assim como sossego é algo diurno, o desassossego é noturno. São nas horas noturnas que ele espreita, deixa a alma avexada. E cada vivente tem os seus, assim como teve o poeta Fernando Pessoa. Sendo assim resolvi publicar alguns desassossegos e convidei amigos e amigas a escreverem também seus textos sobre o tema, ou que me permitissem publicar outros textos já escritos, que de algum modo refletissem desassossegos. Deixo claro, que não temos a pretenção de nos compararmos ao poeta, apenas nele buscamos a inspiração no que é tão humano: o desassossego.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sapucaya A grande Árvore



Contam os antigos que no começo do mundo nada existia.

Depois surgiu o Sol Aram[, que corria durante o dia, e a Lua Aamo, que dançava durante a noite no firmamento. Vez ou outra Aram esperava radiante Aamo aparecer para vê-la dançar.

Nesse tempo Sapucaya a Grande Árvore surgiu da união das forças de Iby a Terra, Ig as Águas, Ibytu o Vento.

Sapucaya era uma Árvore frondosa, bela. Seus últimos galhos beijavam as nuvens de tão altos que eram. E suas folhas cantavam quando a brisa soprava, e suas raízes profundas conheciam a intimidade de Iby a Terra, e dela se alimentavam. Somente ela a Grande Árvore assistia à corrida do Sol e à dança da Lua.
Certo dia, contemplando a beleza do firmamento, Sapucaya se sentiu só.


Assim começa o novo livro de João Bosco A. Sousa, ilustrado pela Rita Vidal, que será lançado pela Nhambiquara Editora.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Lançamento do livro Toque de Letra

Ontem lançamos o livro Toque de Letra de Paulo César Carvalho. O encontro na Livraria da Vila foi muito alegre. Muita gente bonita. Numa noite de segunda feira fiquei a apreciar o encontro dos meus amigos e dos amigos do Carvalho e da Marina. Coisa mais maravilhosa é quando gentes se juntam ao redor de um punhado de poesias. A mágica de um lançamento de um livro é poder congregar pessoas queridas entorno de um livro, de uma idéia, de um sonho. Pois afinal escrever e produzir um livro é um ofício que ainda requer ousadia. Sei que as vezes é amedrontador ou desanimador quando entramos numa livraria e vemos tantos títulos. Aquele que escreve se amedronda, fica acanhado achando que tudo aquilo que ele queria ou quer dizer já foi dito. Ser mais um no meio daquelas prateleiras, "será que meus escritos trarão algo novo..." O editor também fica um tanto desacossoado, quase desanima, pricipalmente um pequeno editor. "Meu Deus a concorrencia é muita! Só a livraria vai levar 50% do preço de capa, o gargalo das distribuidoras que vão comer mais um tiquinho, como fazer propaganda do livro que deu tanto trabalho para ser produzido???"
Lemos as últimas pesquisas e estas dizem que o brasileiro ler pouquíssimo, talvez um livro e meio ao ano. Tanto o escritor como o editor quase chegam ao beira de um ataque de depressão diante de tais notícias...Porém, o livro fica pronto. Depois de tantos percalços, medos, noites insones o livro é entregue. Aquele cheirinho de livro novo. Nos apaixonamos pela capa, alisamos as folhas virgens de olhares outros quase de modo erótico. Tateamos o livro como se ele fosse nos segredar algum mistério. Nos enchemos de coragem e vamos para o lançamento. Será que os amigos virão? Aqueles para quem eu dediquei o livro ficaram satisfeitos? Uma mistura de orgulho, satisfação e um medo do caralho da crítica toma conta de tudo. No dia o coração bate outra batida. E assim como no teatro, onde toda noite de apresentação daquela peça que está a um ano em cartaz é para o ator uma primeira noite, o dia do lançamento, não importa se do primeiro livro ou do décimo faz o cabra tremer nas bases. Se é um editor solidário e que aposta no autor ele também treme e se alegra quando a casa enche, os amigos chegam e podemos ver o autor entre o acanhamento e a alegria mais besta de menino se entregar aos autógrafos. É bem verdade que já vi cessões de autógrafos extremamente chatas, onde o autor fazia aquilo quase como uma obrigação insuportável e puto por você está ali comprando um livro dele e ainda pedindo um mísero autógrafo. Alguns beirava a deselegância. Assim como tinha os que buscavam o autógrafo e achava aquela rabugisse o máximo, um certo masoquísmo. Tenho gosto pra isso não. Gosto do autor entregue ao seu público.
Assim como foi a noite de ontem. Foi bonita alegre, cheia de energia. O autor se derramando em agradecimentos, álacre. E como já disse nas palavras de editor no livro Toque de Letra, fiquei muito feliz de poder botar mais poesias num mundo que está tão árido, mercantilista e deselegante. Parabens para o Carvalho o poeta e Marina que ajudou na produção desse novo rebento da Nhambiquara

domingo, 20 de setembro de 2009

ensaio cinquentenário


Ensaio cinquentenário.

Tem uma hora em que não podemos evitar de fazer uma reflexão sobre o envelhecer. O termo reflexão é bom, pois ele surge do reflexo que o espelho nos traz, dos reflexos que os outros mais jovens ou mais velhos nos provocam.
Chega o dia em que uma mudança ocorre sutil, às vezes na forma de um sonho, uma sensação, uma pequena dor, um prazer diferente, uma noite insone, um gesto que é feito ou que não pode ser feito, uma palavra ou um olhar que nos é dirigido... e então descobrimos que não somos mais jovem, mais, que estamos envelhecendo.
Vêm milhões de comparações. Afinal, se o tempo é relativo como afirma à física, na nossa breve existência humana ele adquire sentido quando usamos medidas de comparação. Tendemos a nos comparar pela medida dos outros ou em relação a outro.
Comparemos nossa existência, nosso vigor, nossa aparência, nossos feitos, nossas conquistas, nossas derrotas pelo crivo do tempo. Este sim é um devorador de seus filhos. Nada sobrevive ao tempo. O que pode resistir ao tempo? Tudo adquire sentido mediante o tempo. Em quanto tempo? Quanto tempo durou? Quanto tempo ainda eu posso? Quanto tempo ainda eu tenho? O que aprendi nesse tempo? “Tempo rei, oh tempo rei! Não se iludam. Não me iludo. Tudo agora mesmo Pode estar por um segundo...Tempo Rei!”Talvez seja o tempo a nossa ultima quimera.

Quando meus parentes lá na Serra da Capivara resolveram deixar o desenho rupestre de um parto eles queriam deixar na dura pedra uma marca da vida breve e frágil. Assim fazemos desde muito tempo. Precisamos criar marcas, balizas para que no caos do tempo longo e infinito em que somos todos lançados, possamos produzir um sentido existencial e afastar o medo do fim. É o fim que nos assombra. Quando dele mais nos aproximamos indagamos se gastamos ou usufruímos o tempo ganho. Nunca haveremos de ter uma resposta absoluta. Essa relação diária de perdas e ganhos que tomamos consciência é algo inquietante. Às vezes divertida noutros angustiante.

Certa feita, eu, meu filho e alguns de seus amigos mijávamos ao relento, no mato. Coisa de meninos. Prazenteiros, nós observávamos a curva do jorro e o barulho na grama quando um deles fez uma observação quase cruel: Ih! O Tio não consegue mijar longe. De fato. Respondi que eles também não conseguiam mijar por tanto tempo quanto eu. Tinha uma bexiga de camelo. Se já não conseguia mover as pedrinhas de naftalina no mictório do bar pelo menos conseguia segurar por mais tempo a mijada e até mesmo o gozo. Coisas que só aprendemos ou adquirimos com a idade. É um ponto de vista, do jorro, da vida.

No bar a mesa ficou cheia. Pessoas de diferentes idades. Um encanto de encontro. No canto uma moçoila de beleza ímpar, com o frescor da juventude a lhe aumentar a áurea encantadora. Botei reparo. Não tinha a intenção de seduzi-la, mais bem que me lembrei de um tempo passado, em que com certeza, moveria mundos ou pedrinhas de naftalina para tê-la em minha companhia. A conversa rolou e em determinado momento veio um lampejo de sedução. E o que agora seduzia era a conversa boa e inteligente. Tão agradável era a prosa e a sedução das palavras, das histórias, que naquele instante sexo oral adquiriu outro sentido. Coisas ou ganhos que o tempo nos traz. Se vivermos a nossa juventude com a devida intensidade, coragem e gozo quando o tempo chegar para cobrar sua fatura, nós teremos não somente envelhecidos, posto que é inevitável para quem vive, teremos ficado antigos. E é uma diferença importante. Carro velho você se livra, mas um carro antigo você coleciona.

As perdas são muitas e cada dia desde que nascemos é um pouco a mais. Mesmo que tenhamos a ilusão que estamos sempre ganhando. Essa ilusão acaba talvez depois dos quarenta ou cinqüenta. Se estivermos atentos há um momento em que sabemos, que não teremos tempo para realizar todos os sonhos do mundo, mas que ainda podemos sonhar. E não adianta sofrer nem com futuro nem lamentar o tempo passado. Aliás, dizia Sêneca duas coisas importantes, uma sobre o sofrer antes, que segundo ele é sofre mais que o necessário e a outra era sobre a velhice “Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a . Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem, Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres.”

Se meu pai não tinha a erudição de um Sêneca, pois afinal era um sertanejo com pouca instrução ele tinha uma sabedoria admirável. Ele dizia de forma reta: “envelhecer é uma merda! Mas veja bem. Agora que pra fazer uma viagem o tempo é tão curto e não é mais em lombo de burro; que pra falar com alguém tão longe é só pegar o telefone; para beber uma água não precisamos mais ir buscar no barreiro, é só abrir a torneira; agora que batemos num botão, temos luz elétrica e o melhor, as moças não escondem mais os joelhos naqueles vestidos... Eita, agora que tudo está tão bonzinho ter que deixar essa vida, é triste, quero não!” A gente aprende com os antigos!

Quero a vida com largura e comprimento. Se não for possível ter os dois, que me seja larga.
Para viver bem e envelhecer bem, temos que ter certo desapego. Quisera ter o desapego budista, saber do vazio e não preocupar com a poeira que possa se acumular no espelho da minha mente, já que tudo é vazio. Sei que tudo é ilusão, tudo é passageiro mais ainda fico preso e procuro limpar a poeira que nesses anos vividos deixei acumular. Sempre me atirei na vida e agora que sei que ela se move rapidamente. Mais ávido por ela estou.

Já não tenho a ilusão juvenil de que viverei para sempre, procuro não desperdiçar nenhuma gota da água ou do vinho que bebo, nem um naco da boa comida que recebo, nenhuma fragrância do cheiro que me seduz, nenhuma palavra bem dita. Até mesmo as limitações, dores, frustrações que me acometem procuro receber. Tudo é presente, tudo é um presente. Não é que estoicamente aprecie, porém, começo a perceber que não vou conseguir esticar um minuto a mais da minha vida. Encurtar talvez seja mais fácil. Mas tenho dúvida se de fato podemos encurtar ou acrescentar um segundo a mais. Essa arrogância eu não tenho. Sei que muitos tentam esticar, a pele, o pau, eliminar as rugas, os sonhos frustrados, as gorduras. Querem ser o que na verdade o que nunca foram e procuram ser “modernos”, conectados com tudo, a tudo e a todos, menos consigo mesmo. Acho ótimo quando consigo ter a rara sensação de que estou conectado a todos e as vezes que isso me ocorreu estava na mais absoluta “solidão” sem telefone, internet, ou estava na companhia de uma criança ou de um cão. Um aprendizado. Nada tenho contra essas boas facilidades, novos brinquedos que podem nos aproximar. Antes, os pensamentos saudosos ficavam presos, demoravam em serem revelados, anunciados, enviados, hoje em segundos nos revelamos gritamos em torpedos a nossa saudade. Gosto disso.
Em um evento em que se debatia sobre sexualidade alguém quis criar uma desculpa para a escassez das trepadas e trouxe aquela pérola de discurso: “o que importa é qualidade e não a quantidade”. Caralho! Importa a quantidade sim e se for uma trepada bem dada, bem feita é uma maravilha. Sempre achei que sexo e trepar são como democracia para um país, se é pouca é bom, se é muita é excelente. É lógico que com a idade manter o vigor sexual requer mais exercícios. É como qualquer outro exercício físico. Se parar desacostuma, atrofia, perde o rebolado. Sabemos que não será mais como na juventude onde os hormônios saiam pelos poros, a qualquer toque de pele era pau duro na certa, um beijo de língua..vixe Maria. Mas com o tempo descobrimos a maravilha de um beijo de língua, as sutilezas dos toques, das carícias, dos afetos e porque não, das maravilhas das indústrias farmacêuticas.

Do amor. Não é que o amor e o sexo tenham a obrigação de andarem juntos ou separados. Os dois são bons e importantes de qualquer jeito. Cada um tem a sua singularidade e complexidade. Mas assim como sexo muda com a idade o amor também. Não posso esquecer o belíssimo trecho do livro O amor nos tempos do cólera em que Firmina Daza escreve numa carta para Florentino Ariza: “deixe que o tempo passe e já veremos o que traz.” Acalmava ela a ansiosa espera de cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias de Florentino. Não importa o tempo para os amantes. Dizem que ele pode curar as dores de um amor que acabou, pode até nos fazer esquecer um amor, mas não pode impedir que o amor venha, e há quem diga que o amor é capaz de vencer o tempo. Muitas vezes o amor fica lá quieto num corpo velho, adormecido, mas quando sopra o misterioso vento do imortal desejo ele se assanha, fica cheio de frescor, o coração bate forte e mesmo com “o cheiro azedo da idade” o beijo pode ser cálido. E haverá tantas coisas a serem ditas... O amor é pra ser vivido em qualquer idade. O tempo só o torna mais saboroso, mais lapidado, menos cheio de posses e ciúmes tolos, até porque a brevidade da vida nos ensina que não temos tempo a perder.

Já não mijo tão longe, já não como tudo sem sentir azia, já não bebo todas, já não fumo tudo, já não.... Se tem um monte de coisas que já não faço, algumas delas eu estou feliz em não mais fazer. Já não acho que tenho razão em tudo, já não faço ou tenho a estupidez de antes, as grossuras, as indelicadezas. Já não acho que aqueles que não são do meu grupo são menos qualquer coisa. Não deixei de ser radical, mas deixei de ser sectário. Não deixei de acreditar na capacidade humana de fazer coisas boas, belas. Apenas aprendi que somos capazes de fazer também coisas horrorosas. A revolução? Ela é permanente e tem que ser global e começa dentro de mim. E mais do que nunca, não admitirei que ninguém governe meu espírito. Pensando bem...talvez a enfermeira bonita que contratarei quando estive meio baleado.

E para concluir lembro mais uma vez Sêneca “ Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. ..Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro”. Chega de desperdícios que venham mais cinqüenta anos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Meus velhos livros

Meus velhos livros.

Certo dia no meio de uma polêmica de como organizar minha biblioteca meu afilhado me perguntou porque eu tinha tantos livros e se eu já tinha lido todos. A pergunta talvez fosse simples e merecesse uma resposta simples, curta. No entanto, eu estava com tempo e respondi de maneira longa, quase uma história. Fiz assim como fazem as mulheres todas as vezes que alguém comenta a respeito de um vestido que elas estão usando. Elas contam uma história.
Contei para ele o quanto gostava de ler gibis quando era um guri da idade dele. O apreço pelos gibis me fez gostar da leitura. Lembrei do dia em que ganhei meu primeiro livro.
Era madrugada do primeiro dia de férias, ainda meio sonolento, vi quando meu pai chegou da rodoviária com a minha irmã que morava em Natal. Além da saudade da irmã que tinha ido embora pra capital, tinha sempre uma grande expectativa dos presentes que ela trazia. Uma besteirinha qualquer era um presentão. Naquela vez ela não me trouxe nenhum brinquedo ou alguma guloseima, me trouxe um livro. Um belo livro. Lembro até do cheiro de tinta nova. Capa dura sem muitas figuras e com muitas palavras. A Vida e as Estranhas Aventuras de Robinson Crusoé um clássico, que na época eu nem sabia o que era um clássico ou mesmo um best-seler. Eu menino pouco afeito ao futebol, devido a minha miopia, resolvi canalizar as minhas energias para a leitura e as punhetas normais de um guri da minha idade. Robinson Crusoé veio dar um colorido novo à minha vida de menino lá do cariri. A aventura, a solidão, a engenhosidade e as inquietações daquele naufrago se instalaram na minha alma assim como o gosto pelos livros. Nunca tinha visto o mar e o livro me fez navegar, saber das tempestades, dos piratas, como sobreviver. Vejam só, um livro inglês de 1719 foi mexer com o imaginário de um menino nordestino em 1969. No sítio da minha tia trepado nas mangueiras somente na companhia do cachorro surubim, meu Sexta Feira, me imaginava naufrago a enfrentar piratas. Daquele dia em diante tomei gosto pelos livros. Lia de tudo. Os pequenos livros de faroeste americano, livros com as histórias dos santos, a bíblia, cordel, até o dia em que meu professor Ribamar meu deu um clássico brasileiro: Dom Casmurro. O fantástico é o que uma história bem contada nos faz, além de nos transportar para a época narrada, pode nos proporcionar a mistura de nossas histórias e com elas aprender pra vida. Até mesmo achar que nossa história é um livro ou que o autor nos conhece, sabe das nossas dores misteriosamente. Vejam só, assim como Bentinho minha mãe queria que eu fosse padre. Aí já deu o gancho! Estava apaixonado por Lavinha minha vizinha, nela meus olhos viam minha Capitu. Eita! Tão interessado e envolvido na história de Machado que descuidei de Lavinha, que foi se enamorar de Emanuel que tinha bicicleta, sabia jogar futebol e estava cagando e andando para os livros de romance. Mas não desanimei. Se os livros eram mais fieis não desisti de amar e desejar as mulheres. Eles os livros ate me ensinaram muitas coisas boas, bonitas para dizer nas horas certas de encantamentos e desfrutes. Poemas, histórias de amor, de aventuras, tratados filosóficos, relatos, biografias de pessoas tão ilustres tudo eu ia apreciando, procurando, curiando, querendo aprender, saber...o que? Pra conhecer uma outra alma conheça primeiro a tua já disse alguém em algum livro já lido. Deve estar lá na estante me esperando para ser relido e fazer eu descobrir que nunca conhecemos profundamente a nossa alma, muito menos as das mulheres sejam elas Capitu, Julieta, Maria Homem, Gabriela, Clarice, Guiomar, Luisa e tantas outras. Ao revisitarmos as nossas entranhas nos surpreendemos, assim como um livro quando é relido e observamos nuances, detalhes, frases preciosas que na primeira leitura não vimos. Até porque não estávamos preparados. É...Tem disso. Alguns livros devem ser lidos na maturidade certa e isso é inexplicável, pois cada um tem o seu momento certo. Um livro pode trucidar uma alma assim como transformá-la completamente. A Mãe, de Gorki, para mim foi um livro que me deu esperança, crença em um ideal e acho que o li no momento certo. Os nomes russos eram um horror para minha compreensão, mas a coragem, a luta revolucionária, o amor da mãe para entender aquele espírito rebelde, a amizade lapidaram minha alma juvenil... Já o livro Crime e Castigo comecei a ler num momento inoportuno. Não estava preparado. Tinha pesadelos terríveis, acordava suado, assustado e tive que parar de ler. Somente tempos depois foi que consegui ler sem tanto sofrimento. Mas se os livros podem provocar sofimento também trazem as delicias o contato com os prazeres mundanos. A sensualidade e erotísmo com que Jorge Amado descrevia as histórias de amores no meio dos reboliços das brigas dos coronéis ou mesmo a singela passagem em que Dora se entregou a Pedro Bala me comoviam e me deixavam excitado. Muito hormônio, rapaizote, qualquer insinuação era motivo para os pensamentos fantasiosos. Imaginação não me faltava e os livros vieram pra ampliar as possibilidades criativas.
Mostrei para o meu afilhado dois livros que tenho muito apreço. Um eu não consigo ler uma palavra. Moby Dick romance do autor americano Herman Melville edição em alemão de 1954. O livro é lindo, tem uma capa de madeira as ilustrações feitas a bico de pena. A abertura era inteligível mesmo em alemão, era forte, talvez por que já conhecesse da versão em portugues: " So nennt mich denn Ismael. Chamai-me Ismael. Se não conheço a língua posso apreciar a forma, o feitio caprichoso, a beleza dos desenhos. Nem tudo a gente precisa entender para apreciar. O outro é um livro de poemas de Gonçalves Dias que em 2010 fará cem anos. Cinqüenta anos mais velho do que eu. Os poemas são lindos, o livro é pequeno com uma capa vermelha surrada, folhas amarelas que pedem cuidado, delicadeza no manuseio. E nele mais uma lembrança de quando menino tive que decorar "Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá". Um livro de cem anos.
Quando nos meus cem anos eu chegar, caso eu chegue lá, eu o darei para o meu neto e talvez ele nem entenda o que é um livro ou porque eu guardei um “objeto” tão estranho, assim como o disco de vinil é para alguns jovens de hoje. Mas eu serei um velho assim como o livro e espero ainda estar cheio de poemas. Espero que meu neto que ainda virá, não precise entender tudo, o todo para amar um presente que veio do passado e que por muito tempo criou futuros. E ele lerá para mim: "Houve um tempo em que eu pedia uma mulher ao meu Deos. Uma mulher que eu amasse. Um dos belos anjos seus", Estão lá os livros a minha espera.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Morreu Michael Jackson em Los Angeles e Maiquel Jekson de Quixeramobim

Morte é trem misterioso! Diria meu amigo mineiro. Já Jesualdo, cearense, já diria: pense num bicho esquisito! Francelina, filha de Franciné e Francisca, que tem por irmã Chiquinha assim chamada pra não ser confundida com a mãe, e que é uma das carpideiras da minha terra, já diria: todo bicho vivo é chegado a morrer, morte é descanso!
Se o cabra vivia no bem bom descansava da boa vida e se a vida era uma bosta, descansava da vida ruim que levava. Se era perverso descansava das ruindades feitas e se era uma pessoa boa foi descansar ao lado da virgem Maria.“A pessoa morre como vive. Se enterra como pode, até porque um enterro descente tá pela hora da morte”.Essa era mais uma das teses dela.
Mas esse giro entorno da morte me veio com o falecimento de Michael Jackson. Veja bem, falecimento. Porque gente famosa não morre, falece. O enterro é sepultamento ou traslado do corpo feito num carro fúnebre ou num féretro. E dependendo das posses, as carpideiras como Francelina, que iam chorar por devoção religiosa ou uns trocadinhos bestas, são contratadas a preço de ouro e em papel juramentado por um excelente advogado. No velório, em vez de ser servido um aluá, um refrigerante, uma sopinha feita pela vizinha que se chega para ajudar a viúva ou viúvo, o que é servido é cicuta. Não se conta piadas, mas todos os podres do coitado falecido. O enterro é um evento espetacular.
Só sei que a sabedoria de Francelina me veio a memória com tantas horas de exposição da morte. As pessoas morrem como vivem e são enterradas como podem. O enterro foi um último show, féretro banhado a ouro, evento muito caro.
O quanto podemos querer de eternidade ou acreditar em infinitudes, seja do nosso legado ou da nossa vida comesinha? Sei não! Perguntas bestas sempre nos assombram nessas horas ou eventos. Trem misterioso. Na lápide do Rei do Pop “Rest In Peace”. Michael Jackson descansou. Porém, a morte continuou um trem misterioso ou um bicho esquisito. Afinal todos nós somos bichos morredores e até o virtual se deleta...
E Maiquel Jekson?
Morreu não. Foi só um passamento ligeiro, bucho vazio...tá tinindo lá em Quixeramobim.Vivinho da silva!